Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo IV – Evidências

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, cara? Beleza?
– Mais ou menos.
– O que houve?
– Não deu certo com ela.
– Sério?
– Sério. Ela preferiu o ex a mim.
– Não acredito. Foi mesmo? [Garçom, duas cervejas]
– Foi. Eu pensei que estava fazendo tudo certo.
– E não estava?
– Estava.
– Então não pode se martirizar. Se você fez tudo, não há muito o que pensar.
– Cara, sabe quando você acha que está fazendo algo muito importante e relevante, mas na verdade não significa porra nenhuma?
– Hum, como se fosse Jô Soares tocando bongô?
– Exatamente isso!
– Sei. Você está se sentindo assim?
– Estou. E sem aqueles aplausos que o Jô ganha no final.
– Uou
– Muito triste essa situação. [embarga a voz] Eu estava gostando dela, cara.
– Como ela terminou tudo?
– Bicho, eu liguei pra ela, marcando de encontrá-la. Levei uma flor, ela olhou meio surpresa, até um pouco desconcertada.
– E aí?
– Aí ela disse que o ex dela tinha nos visto saindo do cinema. Depois, ligou e foi até a casa dela com um violão.
– Com um violão? Quem ele pensa que é, o Djavan?
– Calma que piora. Ele começou a cantar “Evidências” pra ela. Cara, “Evidências”! Não dá pra competir com alguém que canta essa música.
– Deveria ser proibido!
– É o equivalente amoroso ao gol de macete no futebol do videogame.
– Eu me sinto a Inglaterra tomando o gol de mão do Maradona, cara. Não tenho a quem reclamar, nem recorrer.
– Não é pra tanto, essas coisas acontecem.
– Não sei se vou conseguir me apaixonar de novo.
– Tenha calma, o mundo não acabou. [garçom, mais duas cervejas]
– Mas eu estava tão perto de ser feliz, cara. Essa sensação de derrota deixa um gosto amargo de desilusão.
– E isso é mal. Mas essa é outra música, você sabe.
– Eu queria uma segunda oportunidade.
– Dói, meu amigo, mas passa. A vida tem dessas coisas.
– O problema não é a dor. Nem a rejeição. Ok, a rejeição é um problema.
– Admitir é um grande passo.
– Às vezes acho que minhs situação está igual à letra da música.
– Sério?
– Sério.
– Vejamos. Vamos fazer um teste. Você tem medo de dar seu coração e confessar que está nas mãos dela?
– Aham
– Você não imagina o que vai ser de você se a perder um dia.
– É.
– Cara, você precisa de mais cervejas e menos drama. E, bem, o ex dela cantou “Evidências” no violão, lembre-se.
– Eu sei, porra, não precisa me recordar. É só uma impressão.
– No fim das contas, você fez tipo, falou coisas que não é, e depois negou?
[concorda com a cabeça]
– Vamos continuar bebendo. Sabe, meu camarada, acho que um dia ela vai te ligar, dizer que é verdade, que tem saudade e ainda pensa muito em você.
– Talvez, cara, mas até esse dia chegar, eu nunca mais conseguirei escutar “Evidências”
– Meu irmão, fica tranquilo. Se envolver é como andar de bicicleta, meu caro. Não se esquece.
– Eu não sei andar de bicicleta.
– Ahn, garçom, mais duas cervejas.

___________

O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

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12 opiniões sobre “Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo IV – Evidências

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