Cenas de Dezembro

Uma noite singela no metrô. Daqueles dias quentes, cansativos e tensos. A diferença é que aquele dia havia sido o de receber a primeira parcela de décimo-terceiro. Geralmente é um momento apreensivo, a volta para casa estes casos. Surpresas podem ocorrer, todos estão sobressaltados e alertas.

Naquele último trem, entra um senhor humilde. Aparentemente com cinquenta anos, talvez quarenta maltratados. Com uma sacola enorme. Senta. Coloca a sacola aos seus pés. Ao seu lado, um jovem, com seus vinte e poucos anos.

Depois de alguns minutos, ele começa a mexer na sacola, revelando seu conteúdo. Um videogame. Nem é daqueles de última geração, mas é novo, está lacrado. Abre a caixa. Pega um dos controles, obviamente desligado.

Mexe no analógico, fecha os olhos, sorri. Mexe de novo, abre os olhos, brilham os olhos, sorri. Passa a jogar uma partida imaginária, manuseando o joystick, derrotando inimigos e trespassando dificuldades que o fizeram chegar até ali.

Após uns bons minutos, guarda o controle. Os populares que estão no vagão olham aquela cena. Incrédulos, passam a sorrir também. Todos entram no clima daquele senhor humilde.Os sobressaltos dão lugar à gentileza.

Em vez do silêncio sepulcral e comum ao metrô, é possível ouvir “com licença” e “boa noite”, porque a alegria educa. Ele, autor involuntário daquele momento, continua entretido com a sacola. Saca meia dúzia de joguinhos com capas coloridas.

Observa cada uma delas, as especificações. A medida que depura todas elas, passa o joguinho para o rapaz ao lado, que olha com a mesma fascinação. Detalhe: entraram em estações diferentes, não se conheciam, mas naquele momento, viraram cúmplices na viagem. O sorriso do senhor permanecia intacto, cada vez mais acompanhado de sorrisos ao redor.

Durante meia hora, eles trocaram impressões sobre os jogos, sempre com a mesma alegria. O senhor, ao que parece, havia dado aquele presente a si mesmo de Natal. Quantas horas e valores e gotas de suor haviam sido poupadas ali? Não importava. O que era importante,  a genuína felicidade em que aquilo se transformou.

Aquela feição enrugada e maltratada pela vida tinha rejuvenescido graças à alegria de encontrar um brinquedo novo e desejado, sentimento puro e nítido em qualquer criança, mas que pode ser garimpado e encontrado em todos os adultos, inclusive naqueles de coração mais duro. Tocante.

Ao ver aquele pedaço íntegro de infância conservado, cada passageiro daquele vagão de metrô desembarcou com um misto de sentimentos. Alegres de ter se reencontrado também; invejosos daquilo não ter despertado sozinho; felizes de saber que conservavam humanidade. Aquela felicidade foi compartilhada por todos que estavam no vagão. “Com licença”. “Boa noite”.

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Baseado em fatos reais vividos e transformados em belo argumento pelo meu camarada Marcelo Morato.
Aproveite e contribua com a campanha amadrinhada pela querida Nanda Mota. Você Noel. Detalhes aqui

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4 opiniões sobre “Cenas de Dezembro

  1. Pingback: Sorrisos Libertadores | Cotidiano e Outras Drogas

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