Cem/Sem

Cem. Cem anos. Centenário. Guerras, amores, desamores e vidas. Tudo isso sucumbiu enquanto ele vivia. Doenças, ameaças, medos, esperanças. Nada se manteve enquanto ele estava firme. Enterrou pais – e filhos. Abrindo os olhos quase opacos com dificuldade, ele fazia uma retrospectiva de sua vida todo dia ao acordar.

Andava e respirava com dificuldade. Ainda lúcido, era refém do tempo, aprisionado naquilo que um dia foi seu corpo sadio. O relógio e a ampulheta do destino, antes aliados, agora eram torturadores.

Entre vergonha e indignação, não tinha mais controle de suas funções, mas já estava cansado até de se indignar. Ao longe, cada vez mais, ainda ouvia as notícias da TV com a sensação de dejá-vú.

Até hoje, mantinha a dúvida se acreditava ou não em Deus. Queria acreditar, ser buscado pela velha companheira no caminho de luz, assim como os filhos que viu nascer – e morrer. Todos juntos, como naquela foto de algumas décadas atrás. “Mas se ele existe, por que me deixar tanto tempo vivo?” perguntava ele. Viver foi uma benção; hoje, maldição.

Não queria morrer, apenas cansou de viver. Enquanto divagava silenciosamente sobre tudo, já que a força de falar lhe faltava, a vista foi fechando lentamente, como música se encerrando em um disco de vinil. Cem. Sem. Fim.

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Sobre vida e ausência dela, “A Hora da Verdade”, aqui

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