Dos Medos

– Oi, filha
– Oi, a benção.
– Deus te abençoe. Tudo bem?
– Não.
– Por que não?
– Porque não, ué.
“Porque não” não é resposta. O que houve?
– Amanhã tenho prova de geografia.
– E?
– Não consigo me dar bem com a matéria.
– Hum…
– Parece que quando vou fazer a prova, tudo se embola, não consigo lembrar de nada, me dá um branco.
– Você tem estudado?
– Sim! [com entonação de “não”]
– Tem certeza? [com entonação de “pra cima de moi?”]
– Mais ou menos [com entonação de “xi…”]
– Você precisa estudar mais, amor. Não pode estudar “mais ou menos”. Aliás, na vida, nada pode ser “mais ou menos”. Isso é coisa de gente mediana. Se vamos fazer alguma coisa, tem que ser à vera, pra valer, entrar pra rachar. “Mais ou menos” não se vai a lugar algum.
[olhar espantado]
– Mas me diga, além do fato de você não estudar, o que mais te aflige?
– Mas eu estudo! [com aquela indignação fuleira]
– Certo. Vamos pular esta parte. O que mais te aflige?
– A matéria, o professor. Sempre acho que a prova está boa, e quando vejo, nota baixa.
– Se você acha que a prova está sempre boa, o erro é seu. Você está subestimando o objetivo. E além de tudo, você não conhece a matéria, então não vê as nuances da prova e acha que é tudo a mesma coisa. Em resumo, está confundindo telepatia com a Tia do Pelé.
– Oi?
– Você só vai achar algo difícil se dominar a matéria ou se não souber nada. Se souber “mais ou menos”, não vai ter parâmetro. Você precisa estudar mais, para alcançar o resultado.
– Entendi. [olhar compenetrado]
– Você vai conseguir.
– Eu tenho medo.
– De que?
– De fazer uma prova ruim. E ser reprovada.
– Tudo dará certo. Estude.
– Você nunca teve medo?
– Eu sempre tenho medo.
– Mas você parece tão corajoso.
– Devemos enfrentar o medo porque não há outra opção além de andar pra frente. Se ele está no caminho, devemos atropelar. Isso não é coragem, é sobrevivência.
– É por isso que você me ensinou a não baixar a cabeça pra ninguém?
– Mais ou menos. Abaixa a cabeça aí.
[abaixa a cabeça]
– [toma um pedala]
– Ai!!!
– É por isso que você não deve abaixar a cabeça. Cabisbaixa, você não sabe de onde vem a pancada. Olhando nos olhos, fica mais difícil ser surpreendida. Entendeu?
– Uhum. [coça a cabeça] Tá doendo.
– Deixa de manha.
– Ah, tenho mais uma coisa pra te dizer.
– O que?
– Eu amo você
– Eu também te amo, filha.

[duas semanas depois…]

– Saiu o resultado! Tirei sete na prova.
– Aeeeee. Mas você sabe que sete é pouco.
– Você nunca está satisfeito.
– Este é outro segredo, a gente nunca pode se acomodar.
– Posso comemorar meu sete?
– Não.
– [resmunga]
– [joga a almofada na cara dela]
– [gargalham]

Anúncios

3 opiniões sobre “Dos Medos

  1. Pingback: Dos Medos (via cotidiano e outras drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s