Catarina

– Preparado pra sair? Assim recebeu a comunicação que sairia nas vésperas de Natal. Indulto. Clemência. Sorriu sarcasticamente. Era oportunidade de acertar contas com o destino e, principalmente, reencontrar Catarina.

Depois de tanto tempo na cadeia, já havia esquecido certas coisas e certos gestos. Queria ser lúdico, sonhar que estava fora daquele inferno, não contar como estatística, letra de rap, numeral. Ordinário. Mas seus pensamentos eram mais pesados do que o ar, fazia anos que não conseguia nutrir esperanças, apenas contava os dias, quando contava. A liberdade era meio, não era fim.

Foi preso injustamente. Parece balela, pois na cadeia todos são inocentes. É a regra implícita número um. Mas no caso dele foi pego por algo que realmente não fez. Culpa de um idiota qualquer, que além de tudo fez com que seu filho fosse morto sem querer. Ódio virou seu sobrenome, ódio era o que o mantinha vivo.

Quando o informaram que finalmente iria sair, pelo indulto de Natal, teria chance de colocar o destino em xeque, reencontrar Catarina, realizar seus desejos. Sua mudez cheia de rancor foi interpretado como bom comportamento. De ouro, o silêncio é de ouro.

Finalmente a porta da cela se abre, assim como algumas outras portas e cadeados. Pôde finalmente respirar o ar da rua. Depois de muitos anos aprisionado, a hora de colocar as contas em dia chegou. Sua ceia era o anseio.

Chegou em casa, viu a cara sofrida da mulher, maltratada e chibatada pelo destino, que a deixou sem o filho único e com o marido cerrado. Um abraço forte, emocionado. Se olharam. Ele disse sem dizer, ela assentiu sem nada falar. Tomou um café da patroa, quanto tempo não tomava um café da patroa. Quando o líquido quente e forte irrompeu pela garganta, finalmente falou: “Catarina”.

A patroa respondeu de bate pronto: “no lugar de sempre”. Ele vai ao quarto, abre o criado mudo, que tanto ouviu as lágrimas de sua esposa. Lá estava Catarina. Glock 17, 9 milímetros, todas as balas intactas no pente. Olhou, limpou, colocou Catarina na cintura. A hora era agora. Beijou a mulher na testa. Ela se benzeu.

Andou não mais do que quinhentos metros. Entrou na birosca. Ele estava lá, bêbado, como na maioria das vezes. Antes bandido respeitado, tinha sido vencido pelo crack e pela cachaça. Agora era personagem folclórico da favela, mais digno de pena do que temido.

Quando parou de prestar atenção na bebida, viu aquele que foi injustamente para a cadeia em seu lugar, aquele de quem matou o filho, mesmo que sem querer, no meio de um tiroteio. Tentou se levantar, tropeçou. Tentou correr, não conseguiu. Sentiu aquela vez como se fosse a última. Um pacote bêbado, um pacote flácido, uma frase desconstruída de Construção.

Olhou nos olhos do seu algoz do instante seguinte. Tentou pedir desculpas, gaguejou. Posto que não falava, Catarina falou. E falou alto. O pente descarregado, cravejando o pobre diabo de balas, tingindo de vermelho o piso do bar.

Enquanto ele estrebuchava, morto, Catarina voltou à cintura de seu dono. Caminhou os mesmos quinhentos metros de volta, em silêncio. Quando a polícia chegou, nada descobriu. Quem soube, disse que não sabia. Quem viu, disse que não via. Abraçou a mulher, aliviado. Disse: “Feliz Natal”. Tomou um banho. Sentaram-se à mesa, depois de guardar sua companheira de tanto tempo no criado mudo. Sua ceia não era mais anseio.

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