Beckenbauer

Era o primeiro carro dela. Ele meio que torceu o nariz, mas o sonho dela era ter um Fusca. O irmão estava vendendo um. Juntou suas economias e adquiriu o veículo. Branco, ano 1974, todo original, meio baleado. O consorte, ao vê-la chegar com o carro, cravou: “Beckenbauer”. Ela resmungou, mas o batizado já estava feito.

Pois Beckenbauer foi o primeiro carro deles. Durante muito tempo, desfilou imponente pelas ruas da cidade. Encarou sol, chuva e alagamentos, sempre com a galhardia e solidariedade comum ao Fusca, o mais humano dos veículos, o que sempre resmunga e nunca desiste.

Foi nele que ele voltou a dirigir e ela aprimorou seu talento. Até hoje, ela dirige melhor que ele, é consenso entre ambos. Foi nele que a filha dos dois cruzou a cidade para ir ao colégio e ali desfez o primeiro preconceito, adorando andar de carro antigo até hoje.

Houve momentos antológicos, como naquele dia em que perdeu o assoalho em dia de temporal, mas deixou todos vivos, sãos e salvos em casa, como se estivesse jogando contra a Itália de tipóia, na Copa de 1970. Pura raça.

Ou então naquele domingo de sol em que alinhou lado a lado com uma Ferrari no sinal vermelho, roncando com o mesmo barulho e vigor. Ambos faziam de 0 a 100 em 3; a Ferrari em segundos, Beckenbauer em minutos.

Beckenbauer foi companheiro da família por dois anos, até que começou a quebrar mais que Alexandre Pato e ser mais lento do que Junior Baiano. O simpático fusquinha já tinha se tornado motivo de briga na residência, mas a resistência em se desfazer dele era grande, pois já tinha virado parte da família. A frieza dos números, implacável, o denunciou.

O dinheiro da manutenção se tornou mais caro que o preço do veículo e a venda daquele que tinha se transformado em parte da família era o destino inevitável. Beckenbauer partiu em uma chuvosa tarde de sábado, depois de negociação rápida e dolorosa.

Hoje em dia não se sabe por onde anda Beckenbauer. Se virou uma mutação parte fusca, parte playboy, tunada; ou se foi completamente restaurado e hoje desfila seu talento como se estivesse em uma Seleção de Masters.

Toda vez que eles passam por um Fusca branco, se perguntam por aquele que foi uma parte querida da família, até por ele, naturalmente pragmático e ranzinza. Não é materialismo, nem nostalgia, apenas lembranças. Boas lembranças.

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2 opiniões sobre “Beckenbauer

  1. Ainda tenho vontade de voltar a dirigir, e dirigir um fusca… Meu pai tirou a carta e ficou mais de 20 anos sem ter carro. Depois de muita insistência de uma pirralha maluca de 8 anos de idade ele resolveu comprar um fusca amarelo. Mamãe se apaixonou pelo nosso “amarelinho”, embora só tenha mesmo começado a andar com o meu pai alguns meses depois da compra. A maior “aventureira” no amarelinho era eu: “VAMOS PAI, VAMOS DAR UMA VOLTA”. E essa volta tinha que durar no mínimo 15 minutos, pois eu contava.

    Só quem teve um fusquinha bacana sabe como é emocionante subir qualquer ladeira e ver os outros carros engasgando.

    Vida longa ao Beckenbauer e aos fuscas que ainda circulam por ai.

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