Ziriguidópolis

O Atlético Ziriguidópolis terminou o ano passado como quinto colocado no campeonato de Roraima. Quando todos os atletas já estavam de férias, chegou a notícia que o campeão e os outros times mais bem colocados tinham desistido de participar da Taça São Paulo, e o “Ziriga” foi convidado. O presidente aceitou o convite, e o time teria de se apresentar imediatamente.

Agripino Augusto da Silva Santos, o Fuinha, era o presidente do Clube Atlético Ziriguidópolis. Um dos fundadores do time, que nasceu num bairro da periferia da Boa Vista, através de imigrantes de Minas Gerais apaixonados por samba, em 1971.

O nome Atlético veio por causa do Galo campeão brasileiro; as cores azul e verde, por causa de Cruzeiro e América; o nome Ziriguidópolis é em homenagem a Sargentelli, e o mascote, uma mulata passista, também remete ao samba.

Depois do convite inesperado, Fuinha chamou seu treinador e braço-direito, Melão, para traçarem os planos para o torneio. Cláudio da Silva foi apelidado assim porque tem a boca torta, lembrando a personagem de Don Lázaro Venturini em uma novela global dos anos 80 – “Eu prefiro Melão”, dizia Lima Duarte, vestindo o papel.

Melão era muito querido pelo grupo de jogadores, todos eles muito simples, assim como o próprio treinador e o dirigente Fuinha. O time caiu no grupo 25 do torneio, ao lado de Flamengo, Goiás e Jacareí. A missão era não passar vergonha e, se desse, arrancar um pontinho. Os convocados eram velhos conhecidos.

No gol, Peneira, de defesas espalhafatosas e técnica limitada; na lateral-direita, Juruna, de ascendência silvícola, com velocidade da flecha e a precisão do arco, ambos manuseados por alguém com Mal de Parkinson. Na zaga, a dupla de armários formada por Pico da Neblina e Airton Duplex, cheia de talento – tá lento na cobertura, tá lento na antecipação, tá lento na marcação. Na lateral-esquerda, Viagra, famoso na região por sempre levantar bolas na área – sem direção.

No meio-campo, a cancha formada por Negralha, Cotonete, Tião Macalé – que não tinha os dentes da frente – e Giocondo – que com um nome desse não precisa de apelido. Negralha, aliás, foi responsável por um momento tenso antes da inscrição do time.

O volante chegou ao presidente e ao treinador e disse: “Professores, a Copa SP é vitrine, ultimamente não existem muitos jogadores com apelido, eu quero usar meu nome de batismo na competição. Duplo”. Melão e Fuinha se entreolharam, ainda tentaram argumentar que existiam jogadores como Negueba, Muralha, Micróbio e Bactéria, mas o jovem estava irredutível…

…até que o presidente, exasperado, perguntou: “E qual é seu nome duplo, meu filho?”.   Ao que o jogador respondeu: “Ademilson Catarino”. Depois de muita conversa, chegaram em um consenso. Negralha estava rebatizado de Nego Ralha, nome duplo, e assim seria inscrito no torneio.

Na dupla de ataque, as duas maiores revelações do Mulatão – apelido do time – em sua história. Caganeira, jogador insinuante, envolvente, famoso por marcar um gol em uma partida que tinha sofrido de diarréia e não pôde se limpar; e Mentira, jogador valente e baixinho,conhecido por suas pernas curtas.

Esse seria o 11 inicial do Atlético Ziriguidópolis, que contava com mais jogadores entre seus inscritos, como Buiú, Ben 18 – que se chamava Ben 10, mas perdeu a vaga no time titular e mudou o apelido – Jurubeba, Jaguatirica – goleiro ágil e veloz, mas que na hora do sufoco some, entre outros. Todos se apresentaram no embarque com esperanças e sonhos.

Viajaram 4.708 quilômetros com uma garra fora do comum. Praticamente uma semana de viagem. Viraram matéria dos programas esportivos, sempre muito criativos, que escolhem um time durante a competição para mostrar os “sacrifícios” e “lutas”.

O Ziriguidópolis não tem dinheiro, mas Fuinha tentou limar o time das privações. Garantiu a grana da viagem enchendo a camisa de patrocinadores variados, que incluíam desde a Igreja Universal até o Terreiro de Pai Sandu, um paraense do candomblé e louco pelo Papão, que gostava do Mulatão e fixou terreiro bem próximo ao clube. Era comum ver o pastor obreiro da igreja e Pai Sandu torcendo juntos em dia de jogo.

O ônibus da viagem não era lá essas coisas, mas tinha conforto e ar condicionado, prontamente desligado depois que Caganeira justificou seu apelido na metade de viagem. Uma arejada se fez necessária para que os passageiros não morressem asfixiados.

Chegaram ao destino um dia antes do jogo. Ficaram no alojamento, comeram bastante e foram dormir. Estavam nervosos, a estréia seria contra o Flamengo, time do coração da maioria dos jogadores. Na preleção, Melão disse que eles já eram vitoriosos de estar lá, tinham de levar o nome de Roraima para o alto e não podiam passar vergonha.

O jogo começou frenético. Logo aos trinta e sete segundos, um cruzamento na área e Nego Ralha dá uma testada e marca um lindo gol – contra. Além do nome duplo não usual, o volante passava a ser conhecido pelo primeiro gol contra na Copinha daquele ano. E mais sete gols surgiram depois, uma goleada histórica, que poderia deixar os jogadores abatidos…

… se não fosse aquela jogada aos 43 do segundo tempo. Peneira passou pra Juruna, que tratou a bola como um ritual; virou o jogo para Pico da Neblina, que passou para Airton Duplex, e dali para Nego Ralha; do Nego para Cotonete, que tabelou com Giocondo e Macalé. Bola esticada na ponta-esquerda para Mentira, que visualiza Viagra, que levanta mais uma vez a bola na área…

… e encontra Caganeira bem marcado. Só que desta vez o atacante solta um pum muito fedorento e desconcentra o marcador rubro-negro. Sobe sozinho e cabeceia pro gol. E é gol do Ziriguidópolis! O gol de honra, de pé em pé, 1 x 8, chamada em todos os jornais. Uma jogada simples que encheu o time de esperança.

Contra o Goiás, o time jogou muito e só perdeu de 0x5. E contra o Jacareí, com gols de Mentira e Caganeira, de pênalti, conseguiu empatar em 2 x 2, levando o primeiro ponto da história do torneio para Roraima. As façanhas do Ziriguidópolis foram cantadas em verso e prosa. O Mulatão era o time mais famoso do estado, a partir daquele dia.

O time virou manchete por todo o Brasil. O presidente Fuinha ganhou uma medalha do Presidente da CBF, pela bravura e espírito de luta do time, mas não consegue encontrá-la para mostrar a quem pergunta. De vez em quando, tem a impressão de que o mandatário da Confederação pegou a medalha de volta, mas acha que é desfeita comentar algo do tipo.

Caganeira conseguiu uma vaga no Botafogo de Ribeirão Preto e mudou seu nome para Marcio Augusto – embora os companheiros de equipe o chamem de “Fezes” de vez em quando. Nego Ralha voltou a ser Negralha e está em testes no Olaria. A maioria dos jogadores está tentando ganhar a vida pela Região Norte. Mas nunca será esquecida a campanha do Atlético Ziriguidópolis na Copinha de 2013…

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Este texto é uma obra de ficção baseada em fatos surreais. Qualquer semelhança é mera coincidência.

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