O Assalto

[Sábado, 06:22]

[chega no ponto de ônibus]

[senta]

[cochila]

[escuta o barulho de uma bicicleta se aproximando]

– Boy?
– Boy?! Que mané boy, rapá.  [abre os olhos com dificuldades]
– Boy, isso é um assalto. [funga]
– Como assim, um assalto?
– Um assalto, ué. Tu não conhece um assalto não? Eu digo que é um assalto, você me passa suas coisas, não olha pra trás e eu vou embora. [funga]
– Cara, você tá meio noiado. Não tem porque me roubar eu tô indo fazer uma prova, pô. Sou estudante, trabalhador.
– Noiado? Tu me chamou de noiado? Que isso, mermão, você está tirando onda com minha cara?
– Eu? Eu não. Tá maluco? Tô sendo assaltado e você ainda acha que eu tô tirando onda com a sua cara?
– Boy, você é folgado.
– Sou não, mermão. Não tenho dinheiro, só os vales-transporte da passagem.
– Mentira.
– Sério. Serião. Olha minha carteira e sente a realidade. [abre a carteira]
– Boy, tu tá quebradão, hein? Isso é verdade? Se tu estiver tentando me enrolar, eu vou me aborrecer contigo e não vai prestar.
– Calma, cara.
– Calma é o cacete. Já que não tem dinheiro, me passa o celular. Cadê o celular?
– Mermão, tô indo fazer uma prova, não pode usar celular. Tô sem dinheiro, sem celular, sou trabalhador. São seis e meia da manhã e você está ai, noiado e me atrapalhando.
– Eu não tô noiado! [se exalta] Sou uma pessoa com vida difícil, você não está colaborando assim. Depois morre e dizem que a culpa é do ladrão.
– Que isso, cara. Eu querendo morrer? Eu? Quem sou eu, não tenho esse desejo de morrer cedo não.
– Então me passa a grana, o celular, alguma coisa! Agora!
– Não tenho dinheiro, cara, sério eu não…
[passa o ônibus, vai ter que ficar mais um tempão esperando no ponto]
– Ah lá! Perdi a porra do ônibus. Tu fica aí tentando me assaltar, nem puxa arma nem porra nenhuma, tô sem dinheiro e agora posso perder a prova. Tá satisfeito? Aí, porra, tu me fez perder o ônibus. Mermão, eu não tenho dinheiro! Me deixa em paz! [grita]. Eu tenho só os vales transporte, uma água e um biscoito recheado de chocolate!
– Boy, tu é folgado pra caralho, hein?
[cara de ódio]
– Me dá três biscoitos recheados desse aí e fica tudo certo.
[pega o biscoito, passa o biscoito, a contra gosto]

* * *

[Quinze minutos depois…]

– Boy, me dá um gole dessa água aí que o biscoito engasgou.
– Depois o folgado sou eu. Noiado.
[funga]
– Olha meu ônibus ali, sai, sai, tchau.

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