Neve

Para um menino nascido e criado em lugar de praia, ver neve era um sonho muito incomum. A idéia dos flocos de neve caindo lentamente, flanando pelo ar, fazia brilhar os olhos da criança. O tempo passou mais rápido do que o necessário, mas o desejo de ver o mundo de branco persistia.

Com o tempo, a infância foi se soterrando na dureza da vida cotidiana. Entre as desilusões, os sorrisos rareiam e não sobra muito tempo para sonhar. Entretanto, quando a realidade apertava mais do que o normal e a pressão subia a níveis hipertensos, fechar os olhos e imaginar a neve era uma das fugas mais recorrentes.

Mais maduro, com uma filha, reflexo teu, o menino passou a desenterrar o próprio passado e viver com mais leveza. Leve como a pluma, como a neve que flutua pelo ar frio. Passou a trabalhar melhor, tirar férias, viajar. O menino foi em busca de mais um sonho. Queria ver neve. Tinha a certeza de que iria ver neve.

As previsões do tempo eram desanimadoras. Ou nevaria um dia antes das chegadas, ou nevaria um dia depois das partidas. Haveria dois locais que poderiam ser pintados de branco.

No primeiro deles, muito frio, mas o sol aparecia esplendoroso. Dias azuis, mesmo com temperaturas geladas. Conformou-se e passou a andar pelas esquinas sem expectativas. Checava as previsões do tempo para a próxima cidade e elas eram animadoras. Poderia nevar. Poderia. Iria?

Os dias passavam e o frio aumentava. As condições eram as ditas ideais. Andando pela cidade, debaixo da roda gigante, sentiu uma coisa caindo em sua cabeça. Não era neve – ao menos não era cocô de pombo. Era gelo. Choveu granizo. Mas nada de neve. E assim foi por todos os dias. Nada de neve.

Até que na hora de ir embora, pegou o trem para o aeroporto. Sem esperança, um tanto frustrado. Era um sonho não realizado do menino. Muitos foram assim, é verdade. Muitos sonhos caíram no limbo do esquecimento, substituídos por outros. Mas neve é algo único. O menino fechava os olhos enquanto o trem andava pelos subterrâneos da cidade.

Quando o trem emergiu pelos subúrbios, o menino abriu os olhos e teve a surpresa: Nevava. E muito. Campos de rugby e futebol alvos, pinheiros carregados, assim como árvores desfolhadas. A neve caía como pluma, forrando o chão e tingindo a grama de branco. O menino olhava maravilhado pela janela do trem, as lágrimas caindo mais rápidas que os flocos do lado de fora.

Ao chegar no aeroporto, o sonho tinha se transformado em realidade. O menino viu neve. E pela primeira vez, não precisou fechar os olhos para fazer isso acontecer. Bastou abrir e arregalar suas pupilas. E ele sorriu chorando.

Anúncios

Uma opinião sobre “Neve

  1. Quase chorei na primeira vez que vi neve caindo. Olhei pela janela e tinha umas coisinhas brancas caindo, mas no primeiro olhar, concluí que fossem flores caindo das árvores. Mas daí pensei: que flores o quê, cara pálida? Vc tá no inverno do hemisfério norte! Não tem flor! É NEVE!

    E quase como Galvão Bueno na Copa de 94, fiquei gritando que era neve, vesti o casaco e as botas e corri para fora para pegar floquinhos nas mãos.

    Curtir

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s