Nas Filas e Museus

I

– Tá frio, amor.
– Podia ser pior. Tá uns 10 graus.
– Mas com esse vento, parece uns 3. O vento daqui corta.
– Domingo, museu de graça, normal ter fila. Poderia ser pior. Imagine você em Rondônia, 40 graus, na fila?
– É, você tem razão.
– Pessoal todo encasacado.
 [escutam o bochicho]
– Esse pessoal da frente é português.
– É. Um grupo grande. Tem umas dez pessoas.
– Verdade. Uma delas é anã?
– Parece ser anã, ou então é uma criança muito precoce.
[passam quinze minutos de fila]
[um dos portugueses saca o celular]
[começa a tocar Dança Kuduro]

– Essa é a música da novela?
– Parece que sim. Aquela do “saco duro”.
– Não, o nome é “Dança Kuduro”.
– No fim das contas, continua sendo ruim.
– Olha…
– O que?
– Eles estão coreografando.
– O que?!
– É, coreografando a música. Olha a anã dançando!
– Eita!
[os portugueses coreografam o kuduro inteiro, a anã olha pra trás, é a maquete da Shakira]
– Os americanos aqui atrás estão com uma cara de “What the fuck?” que dá vontade de gargalhar só ao olhar pra eles.
– Mas já estão balançando os bracinhos, daqui a pouco vão dançar juntos.

[os portugueses mudam a música para Gangnam Style]
[mais estrangeiros começam a coreografar]

– Ah não, Gangnam Style não.
– Mas tá ventando, tá frio.
– Eu preferia a música do saco duro.
– Entra no clima, até os americanos estão se soltando.
– Tá frio.
– Vamos dançar, dança aí.
– Tá abrindo o museu, aleluia, amém.
– Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, sexy lady.

* * *

II

– Olha a pirâmide, que linda!
– É verdade, e esse palácio, que enorme.
– Era a moradia de Napoleão.
– Tinha mania de grandeza, né?
– É.
– Olha a fila.
– Hum.
– Só tem japonês.
– Verdade. Todos eles com máquinas fotográficas.
– Deve ser pra ver a Mona Lisa.
[… dez minutos depois…]
– Cara, tem muito japonês aqui.
– Muito mesmo.
– Tem mais japonês aqui do que em Okinawa.
– Será?
– Tenho certeza. Uma coisa é bacana, eles gostam de cultura. Você não vê essa quantidade de japonês na rua, mas nos museus eles estão em todas.
– Será que os japoneses fotógrafos fazem parte da coleção permanente dos museus?
– Será?
– Opa, vamos comprar os ingressos, esse museu é maior do que Recife, temos de ver as obras primas e o que mais der.
– Começamos por onde?
– Mona Lisa, claro. É o quadro mais famoso do mundo.
– É verdade, vamos matar logo esse. Será que impressiona.
– Bem, deve impressionar. Pra ser famoso desse jeito…
– É.

[… entra no museu, dez minutos procurando a Mona Lisa…]

[barulhos de máquinas fotográficas disparando]
– Cadê a Mona Lisa?
– Olha a Mona Lisa ali!
– Não dá pra olhar, eu sou baixinha, tem muito japonês na frente.
– Calma, a gente consegue chegar perto, vamos ganhar esta Batalha de Iwo Jima.
– São centenas deles!
– Mas eles são educados, a gente dá um jeito, peraí.
[chegam perto da Mona Lisa]
– Olha a Mona Lisa, ela é tão… tão…
– Ela é uma merda. Tanto sacrifício pra ver esse quadro de 1,20 x 1,20, com essa mulher que parece um travesti? A “Sagração de Napoleão” ali atrás é muito mais impressionante.
– Para de ser ranzinza, uma das possibilidades é que a Mona Lisa seja o auto-retrato feminino de Da Vinci
– Olha, na forma masculina ele já era mais feio que meu dedão do pé, na forma feminina então…
– Pare com isso.
– Sério. E se for realmente Lisa Ghirardelli, coitada dela. Ficou eternizada na feiura.
– Você não entende nada de arte.
– Verdade, mas eu nunca te enganei.

* * *

III

– Esse palácio é bem bonito, hein? O rei tem bom gosto.
– Também acho, olha esses instrumentos musiciais, tudo Stradivarius. Essa família real gastava muito.
– E agora na crise, vão vender tudo?
– Claro que não, ganham dinheiro com souvenir. O rei cobra até pra ir no banheiro aqui dentro.

[barulho estranho]

– Ouviu isso?
– Ouvi.
– Que esquisito, parece um gárgula.
– Gárgula?! Você romanceia tudo, isso é um arroto.
– Sério?
– É.

[barulho mais forte]

– Eca.
– Olha o dono do barulho ali. Mas, ele está com a filha do lado. Será que é um tique nervoso?
– Acho que sim, ele não consegue se controlar.

[mais um arroto]

– Eu estou mais constrangido por ele do que por mim.
– Acho que ele também está constrangido.
– Não dá pra gente apertar o passo?
– Não. Quero ver todas as tapeçarias, são muito detalhadas. E de mais a mais, tô acostumada com arroto, você faz isso todo domingo depois do almoço.
– Mas não tenho essa especialização toda na arte. O cara é o Rei dos arrotos.

[mais um arroto, agora ecoando]

– Eu estou consternado com os arrotos do cara. É o pior tique nervoso que já vi na minha vida.
– Podia ser pior. Podia ter cheiro.
– Verdade.

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3 opiniões sobre “Nas Filas e Museus

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