O Namorado de Cabelo Azul

[lavando louça e escutando som]

– Amor, cadê filhota?
– Tá no quarto, inclusive ela queria falar com você. É importante.
– É sério?
– Olha, eu acho que é.

[começa a tocar Eduardo Dusek na rádio]

– Oi, filha, o que foi?
– Benção.
– Deus te abençoe. Tá tudo bem?
– Tudo ótimo. Tenho uma coisa pra te contar.
– O que? Tá gostando do colégio novo?
– Tô, mas não é isso não.
– O que foi?
– Tô namorando.

[Olha pra esposa]

– Levantaaaaaaaaaaa, me faz um caféeeeeee… que o mundo acabou.*

[senta no sofá]
[respira]

– Ok, Filha. Que que é isso? Quem deixou? E você, vai deixar sua filha namorar assim, sem saber quem é esse cara? É o menino do beijo?
– Engraçado que quando você quer dar esporro ela é só minha filha. Interessante.
– Ué. E não é?
– Não, aquele é passado. O nome dele é fulano, ele veio aqui conhecer mamãe.
– Ah, foi?
– Foi.
– Ele veio na minha casa, sem a minha presença, é isso mesmo? Virou bagunça?
 [silêncio]
 [sorrisos]
– Amor, pare com isso. Eu estava aqui. Você não sabe que quem gerencia a casa sou eu?
– Isso não vem ao caso. É que nem em Hollywood, tudo funciona às mil maravilhas, mas quando aperta o Bruce Willis aparece. Eu sou o Bruce Willis.
– Ah, você é o “Duro de Matar”?
– É, mas vocês estão querendo me enfartar com essas notícias.
– Então, “Bruce Willis”, ele veio aqui. Tímido, meio bobo, de cabelo azul…
– Cabelo azul? Cabelo azul? Filha, você está namorando alguém de cabelo azul? Me diga alguém de cabelo azul que tenha mudado a história da humanidade? Nem os smurfs mostram o cabelo azul!
[muxoxo]
– É muito difícil ser pai nestes tempos modernos.Esse cara é emo?
– Ahn… não sei se ele é emo ou clubber.
– Ah, mas pra saber é muito simples: coloca ele no escuro, se brilhar é clubber, se chorar é emo.
 [risos]
– Parem de rir, estou indignado. Quantos anos ele tem?
– 18
– O que? Dezoito? Mas ele é um pedófilo!
– Calma, amor.
– Ele devia estar fazendo outras coisas da vida em vez de estar com cabelo azul seduzindo adolescentes.
– Que exagero. Pare de ser dramático, amor.
– O mais importante, filha: Ele te faz feliz?
– Ah, ele é legal.
– Hum…

[filha sai da sala]

– Amor, estou mais aliviado.
– Por que? Porque ele é legal?
– Não, porque não é amor, nem paixão. Não dura nem um mês.
– Também acho.
– Vamos fazer um bolão?
– Vamos.
– Duas semanas?
– Uma e meia.
– Ok. Vale uma cerveja.

* * *

[duas semanas depois…]

– Oi filha.
[dá um beijo, anda rápido pro quarto, fecha a porta]
– O que ela tem?
– Terminou o namoro.
– Duas semanas?
– E meia.
– Ganhei a cerveja?
– Mais ou menos.
[gargalham]
[lá do quarto…]
– Parem de rir!

____________

* “Nostradamus”, de Eduardo Dusek.

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