Carta ao Ídolo

Zico,

Eu não sei como começar a escrever uma carta pra você. Eu tenho meu nome por sua causa, em uma história até engraçada por parte dos meus pais. Mas isso não me garantiria como flamenguista, claro. Só que – ainda bem – enveredei pelo lado rubro-negro da força.

Graças a você. Não só o nome, como meu companheiro mais antigo – o Flamengo – eu devo a você. Na primeira Copa do Mundo que acompanhei em detalhes, a de 1986, você foi o responsável direto pela derrota, afinal bateu o pênalti.

Mesmo lascado, com o joelho parecendo uma bola de rugby, você foi lá e bateu o pênalti. Não se omitiu em nenhum momento. Naquela seleção, você era um coadjuvante estrela, algo como o Sean Connery em “Os Intocáveis”. E como tal, foi sujeito homem, teve culhões, como se diz no subúrbio. E isso te fez mais ídolo.

E foi você quem eu fui ver na primeira vez lá no Maraca. Na sua casa, fui como convidado. E vi você acabar com o jogo contra o Santa Cruz de Birigüi. Barba, cabelo e bigode, Zicão. Três gols, inclusive um de falta que raros jogadores fariam. Você? Você fez aquele e muitos outros. Parecia colocar a bola com uma pena onde muitos tentam empurrá-la a fórceps.

Quando eu voltei pra casa, no campinho de areia lá em Ramos, treinei várias faltas para bater igual àquela que vi no Maracanã. Meu sonho era ser o camisa 10 da Gávea, aquela coisa de fama, talento e fortuna.

Nunca consegui bater uma falta igual a você, tampouco ser o maestro rubro-negro, mas não me frustrei. 14 é meu número de sorte e sou um bom zagueiro de peladas. Não tinha talento pra vestir a 10, muito menos a do Mengão. Já me contemplava torcer pelo Flamengo e por você, Zicão.

E isso tudo quando era criança, vendo você jogar. Em 1989, num sábado à tarde, do alto dos meus 11 anos estava de olhos vidrados na TV, vendo você humilhar mais uma vez o Fluminense, lá em Juiz de Fora, que parecia muito longe. Nem o Maracanã queria ver você se despedir, por ser doloroso demais.

Aquele gol de falta no ângulo do Ricardo Pinto, que se declarou honrado de ter tomado aquele gol – indefensável, aliás. Mais um rival que se dobrava a você, como tantos outros, muitos que depois de rivais, viraram grandes amigos, como Sócrates, Rivelino, Roberto Dinamite. Mais uma coisa rara que agiganta sua história.

E naquele dia, depois do apito final, eu desci pro campinho de areia, meio chorando, meio com raiva, querendo me vingar por você do tempo, esse inimigo implacável que tirou você do Flamengo.

Bola na entrada da área, adivinha quem vai bater? Adivinhei. Não era você. E eu chorei de novo. E tomei o seu lugar. Desta vez, pelo menos, acertei o gol. No ângulo. Sorte e homenagem, acredito. Parabéns pelos 60 anos, Zicão. Parabéns por me ter feito flamenguista e, mais que isso, feliz.

 

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