Macho

No interior do Nordeste, ele tinha fama de macho na cidade. Com seus 60 anos, suas posições misóginas e machistas ainda eram escutadas com atenção naquela grande pequena cidade, quase província. Criou seus filhos com pouco afeto e muito cinto, tradição que perduraria durante toda a relação.

Não tinha pouco dinheiro, nem muito. Não podia ser chamado de “coronel”, mas ostentava arrogância de um, embora as contas bancárias não passassem da patente de confortável. Mesmo assim, na base de intimidação, era figura famosa.

Um dos filhos do velho macho, quieto, calado, sensível, sempre foi motivo de troça dos amiguinhos. Tinha a pecha de “bicha”, “viado”, “frango”, “flozô”. Era surrado pelo pai, que não entendia porque ele não reagia, mas sua raiva se traduzia em silêncio, sempre.

Tinha um amigo de infância, com as mesmas características. Cresceu e virou objeto de desejo das meninas, se casou com uma mulher linda, teve um par de filhos. O amigo foi seu padrinho de casamento.

O amigo, filho de família humilde, venceu na vida por mérito próprio. Dois de seus irmãos não tiveram a mesma sorte. Um foi assassinado, outro virou bandido. Bandido daqueles malucos, psicopatas, estava preso havia um tempão. Mesmo assim, quando via o irmão ou a mãe, o meliante virava criança, ente querido, sangue do sangue, e era um doce. Aquela família era seu único elo com a humanidade.

Pois o amigo também casou com uma moça linda e teve três filhos. E chamou o filho do coronel, seu irmão de longa data para sociedade em uma farmácia. O empreendimento, que ficava na praça principal, ao lado do coreto, rapidamente se tornou um sucesso. Os proprietários, felizes, ganhavam bem e tinham orgulho do resultado.

Entretanto, o velho – macho – não estava satisfeito. Muitas vezes escutava rumores e boatos infundados sobre um relacionamento homossexual dos donos da farmácia, um deles seu filho. Aquilo o enfurecia sobremaneira. Era inegável que ele desconfiava que fosse verdade. O coração – tomado de ódio – era um demônio pulando dentro do peito.

Até que um dia, jogando dominó, e bebendo litros de cachaça, apostando dinheiro, o velho perdeu. Perdeu a partida, o dinheiro e a compostura, ao ser chamado pelo adversário de “ruim no dominó e pai de flozô, amante do sócio, que trepa na farmácia”. Partiu a cara do adversário, que caiu de nariz quebrado, sem dois dentes, com o dinheiro espalhado por cima do corpo desmaiado.

O velho, bêbado e ensandecido, foi em casa, buscou seu velho 38, colocou na cintura e partiu para a praça. Ao chegar, deu de cara com o filho. “Viado!”, foi a única expressão que disse, antes de socar seu próprio rebento. Encarou o sócio do menino e bradou: “Você desgraçou minha vida e a do meu filho”. O rapaz não entendeu nada, até sentir o calor na barriga e a camisa tingida de vermelho.

Tentou correr, quando estourou o chumbo nas costas. Agora o gosto característico de sangue tomava conta de sua boca. E mais não sentiu, pois quatro balas penetraram seu corpo, a última – requinte de crueldade – no pênis. Morreu na escadaria do coreto, perto da farmácia, longe da família.

Comoção na cidade, foi o que houve. O velho fugiu. A viúva e os filhos choravam compulsivamente a morte imbecil por uma mentira. O sócio, amigo, filho se deprimiu. Por um lado, era filho de um bandido; por outro, perdeu o grande amigo dos tempos de infância, o sócio, por um motivo torpe, bobo, imbecil.

Se passou um ano e o velho macho continuava foragido, até que sua história saiu em um daqueles programas de TV. Ficou famoso. Foi reconhecido na rua. Não temia, achava que tinha feito o certo. Um advogado, de um coronel da região, o localizou e entrou em contato. Disse que conseguiria ganhar a causa.

O velho ficaria preso uns 3 meses antes do julgamento, depois sairia pela idade, talvez. Certamente por bom comportamento. O velho, pensou, refletiu. Tinha saído na TV, isso devia bastar para ser respeitado na cadeia. Se entregou à polícia. Ouviu muitos elogios da comunidade machista. Chegou ao presídio algemado e fortalecido.

Quando entrou na cadeia, por não ter curso superior – nem inferior – foi colocado numa cela comum com outros presos. Se apresentou, contou sua história. Da penumbra, um rapaz de olhos esbugalhados se apresentou: “Eu sou irmão daquele que você matou e chamou de frango. Por causa de você, minha mãe morreu de desgosto e eu perdi as únicas coisas que eu amava. Meu irmão não era frango, mas você agora é”

Deu uma rasteira no velho, que caiu de quatro. Depois uma joelhada no queixo, que deixou o macho grogue. Os companheiros de sela seguraram o velho, que foi depilado, enquanto o batom vermelho se confundia com o sangue que saía do nariz.

O velho foi estuprado várias vezes por inúmeros presos aquele dia, sempre com olhar do irmão daquele que foi morto, transformado em anjo caído vingador. O pai de família, antes tão valente, implorava para não ser mais seviciado, pedindo perdão, mas não tinha jeito.

O outrora macho passou a ser conhecido na cadeia como a “vovó puta”, cafetina dos travestis, andando ele mesmo de camisola rosa e calcinha fio dental. Morreu – não se sabe se de desgosto ou doença venérea – antes de ser levado a júri.

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