Apocalipse

De repente, tudo fez sentido. Aquela bola de fogo queimava o corpo, prenunciando o novo apocalipse. Ele não acreditava em tudo que vivenciava naquele momento. Era o Juízo Final, só podia ser. A eleição do novo Papa tinha acabado de ocorrer, mas se sentia no meio do inferno.

Penintência. Só se lembrava da palavra. O mundo deve ter acabado. “Não foi em 2012, é agora.” Se recusava a abrir os olhos. Contou e recontou os seus pecados, todos eles. Confessou à própria consciência quantas vezes enganou e se enganou. Ainda não conseguia se mexer.

Uma coisa era boa, ao menos. Estava consciente. Se tivesse morrido, estava no purgatório. Ou no reino das trevas. Não ficaria surpreso, afinal não foi das pessoas mais carolas, desrespeitou sistematicamente alguns dos dez mandamentos e Deus só era lembrado em momentos de desespero.

De qualquer maneira, se tudo estivesse acabado, ainda não tinha acabado, o que era uma grande coisa. Chamariam de reencarnação, umbral, portais de Hades, mas ainda havia consciência. Ainda havia tempo de se redimir, ou na pior das hipóteses, se conformar com o fogo eterno do cramulhão.

Se encorajou a abrir os olhos. A luz incandescente furava suas pupilas. Escutou o barulho de cavalos cavalgando em um trote que, à primeira vista, pareceu ameaçador. “Os cavaleiros do apocalipse”, pensou. Tentou se levantar, se ajeitou e viu quatro homens humildes em suas montarias. Ué, não eram a morte, a fome, a guerra, a pestilência.

– “Meu filho, você dormiu na praça. Você estava na festa que houve ontem
ali no clube? Que cachaça brava, hein?”

Começou a se lembrar vagamente do que houve. Whisky, sem água de coco, mas naquela noite, tanto fez. Não bebeu, entornou. Será uma bela fatura de cartão de crédito a pagar. O corpo pulsou, agora a cabeça lateja.

– “Ahn , acho que, enquanto você dormia, roubaram sua carteira.”
– “E seu celular”

Olhou os bolsos. Vazios. Fudeu. Tudo aquilo foi um sonho. Agora estava acordado, fedendo a álcool, sem carteira e celular. Não deixava de ser um purgatório. Hora de pegar um táxi e voltar pra casa. Como pagar? Hora de ligar para um amigo socorrer. Como? O apocalipse era ressaca. Pediu carona na montaria de um dos homens, até o ponto de ônibus.

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