O Clássico

Para os adolescentes de Ramos, nada era mais importante do que o campeonato de futebol entre as ruas. A Libertadores leopoldinense do asfalto, que atraía olheiros do Olaria, Bonsucesso, Madureira entre outros times pequenos e charmosos da cidade, mexia com o bairro e todos os seus habitantes.

Os jogos não aconteciam em campinhos, mas nas ruas, que eram fechadas para partidas entre os times, todos devidamente uniformizados. Quatorze ruas disputavam um torneio dos mais competitivos da região, com regras, rivalidades e premiações.

Só podiam jogar aqueles que tinham até 18 anos, embora de vez em quando aparecesse alguém que jurava ter nascido em 29 de fevereiro e fazia a contagem de idade de 4 em 4 anos. Mesmo assim, poucos casos de gato eram descobertos.

As traves, especialmente para esta ocasião, eram idênticas às traves da várzea, substituindo as tradicionais balizas de chinelo para evitar – ou melhor, diminuir – a polêmica.

Além disso, cada rua virava um alçapão particular. A “altitude” de uma delas, com sua ladeira que cansava o adversário no segundo tempo, quando ele invariavelmente atacava subindo – a “mística” do sorteio da moedinha, nunca descoberta.

O piso de paralelepípedos de outra, que se tornava um tormento para os adversários, tal a quantidade de desvios que a bola tomava antes de chegar ao gol; o asfalto abrasivo e chapiscado de outra, que deixava os pés com bolha de sangue, e por aí vai.

É importante ressaltar que, neste campeonato, poucos jogavam de tênis. O lance era o futebol moleque, pé descalço, toco y me voy. Tênis, assim como futebol-arte, escanteio curto, amor platônico e coração aberto, era coisa de menino criado com avó, que soltava pipa no ventilador e jogava bola de gude no carpete.

No meio daquele campeonato, havia muitas rivalidades, a maior delas era o clássico Rua da Feira de Cima x Rua da Feira de baixo. Explica-se: A Rua da Feira era uma das maiores ruas de Ramos. Era tão extensa que o pessoal da parte de cima e o pessoal da parte de baixo não interagiam, como se fossem Alemanha Oriental e Ocidental. O clássico tinha o singelo apelido de “Xepão”.

Naquele campeonato, Cima x Baixo, o Xepão, seria o jogo da última rodada. A rivalidade era muito além do asfalto. O time de Cima era treinado por Pink Floyd, um ex-soldado do exército brasileiro que largou tudo para ser hippie, e tinha uma oficina na rua. Embora o treinador defendesse o “paz e amor” e impedisse que seu time falasse palavrão, o Cimão batia mais do que Sylvester Stallone nos finais de Rocky.

O uniforme, de forma rudimentar, lembrava a capa de “Dark Side of the Moon” e o ataque do Cimão, formado pelos filhos do treinador, Zabelê, Zumbi e Besouro, já tinha feito mais de vinte gols naquele campeonato. Outro jogador importante era o zagueiro Girino, ídolo da molecada e líder em campo, famoso por enquadrar os adversários.

Naquele torneio mesmo, um promissor goleiro do Flamengo e da Seleção, chamado Noronha, jogava na linha do time da Aureliano Lessa. Ao enfrentar o Cimão, ficou irritado
com a marcação de Girino e disparou: “Você sabe quem eu sou? Noronha, goleiro juvenil do Flamengo e da Seleção!”. A resposta foi no clima do campeonato: “Prazer, eu sou Girino. Agora para de reclamar porque em Ramos futebol é pra homem. Deixa de ser fresco.” O jogo seguiu e Noronha não reclamou mais. Nem fez nada em campo.

O rival, a Rua da Feira de Baixo, não ficava atrás. Treinado por Marcelo Monstro, que morava em uma cobertura – as crianças da rua diziam que “em cima daquele castelo, mora um monstro chamado Marcelo”– e comandava o time trajado de boina e sunga vermelha, era um dos times mais temidos do campeonato, pelo talento e pela catimba.

Jogava com dois atacantes infernais, Comunista e Munha. Comunista tinha esse nome porque só atacava, driblava e fazia gols com a esquerda. Embora tentassem marcá-lo, ele sempre dava um jeito de ludibriar a marcação adversária.

Já Munha era uma abreviação carinhosa de Testemunha de Jeová. Um garoto magro e mirrado que quase tinha morrido pela falta de transfusão de sangue, anos atrás, e que hoje em dia era ateu. A família abandonou a religião após descobrirem que a gravidez da filha mais velha não foi obra do milagre de Deus, mas sim do cantor de um grupo de pagode da região.

Na zaga, o xerife do time da Rua da Feira de Baixo era Cecê. Carlos César jogava muita bola e era chamado assim por causa das iniciais do seu nome – e das glândulas sudoríparas. Cecê era capitão e ídolo do time dos Marajás, apelido da Rua da Feira de Baixo.

Os times chegaram à última rodada empatados em pontos. Quem vencesse seria campeão. Se houvesse empate, dependeriam de saber se o time do Larguinho, da Doutor Noguchi, também empatado em pontos, conseguiria vencer o lanterna da competição. A Peçanha Póvoas, que não tinha ganho nenhuma partida no certame, estava mais derrotado do que Charlie Brown tentando conquistar a Garotinha Ruiva.

Às 10 horas da manhã, abertura da rodada. O Cacique de Ramos fez uma apresentação especial, seguido da bateria da Imperatriz Leopoldinense. Às 11, começou o jogo. No clima de mais vale um jegue que me carregue, Girino dá uma entrada cavalar em Munha logo a 2 minutos de jogo. O ateu não quebrou a perna por milagre. Além de tudo saiu andando, depois correndo,  arrematou driblando e marcou o primeiro gol da peleja.

Mas o Cimão era valente, virando o jogo logo em seguida, com gols de Zabelê, Zumbi e Besouro. Um de cada. Maravilha, juventude. No intervalo, o jogo estava 3 x 1 pros de Cima. Os berros de Marcelo Monstro ecoavam por todo o bairro. O time de Baixo precisava reagir. A vitória teria de vir, de qualquer jeito.

Quando recomeçou o jogo, o time da Rua de Baixo veio disposto a reverter a parada. Comunista, com um balaço que orgulharia Stalin, diminuiu o placar. A equipe impunha uma pressão absurda no Cimão, que resistia bravamente, chutando bolas na direção da linha do trem, buscando a vitória que daria o título. Até que…

… faltando 10 minutos para o jogo terminar, escanteio para os Marajás. Todo o time do Cimão praticamente na linha de seu gol. Comunista bateu fechado, Cecê subiu mais alto que todos e testou a bola, com açúcar, com afeto, trocando em miúdos, uma letra de Chico Buarque. O goleiro ainda acariciou a redonda, mas ela adormeceu nas teias da rede. Era o empate, que incendiou o “Xepão”.

Na comemoração, Cecê olhou para Pink Floyd, apontou o dedo e vociferou: “Vai Tomar no Cu!”. Brilhou o diamante louco do técnico, que não tolerava palavrão e invadiu o campo para dar palmadas naquele menino. Marcelo Monstro foi defender o seu jogador e cenas lamentáveis se estabeleceram em campo. A Libertadores leopoldinense do asfalto mostrava seu lado peleador.

Depois de 20 minutos de paralisação, o árbitro Elymar Santos – que não era o cantor, embora este seja de Ramos, mas um sósia que cantava nos barezinhos do bairro – recomeçou o jogo. No último minuto, escanteio para o Cimão. É sabido que não existe acréscimo no futebol de asfalto. Saiu a bola, acaba o jogo. O momento era tenso.

A situação se inverteu, todos os Marajás na área. Já não era a questão de vencer o rival, mas morrerem abraçados, como Romeu e Julieta. Naquele momento, se escutaria uma agulha caindo na barulhenta Ramos. O goleiro Bobby – por ser igual à personagem Bobby, dos desenhos, com a cabeça do tamanho de Jupiter – foi à area adversária.

A batida seca na bola, por parte de Zabelê, foi escutada por todos os presentes. O tumulto estava formado, o bububu no bobobó, o balacobaco no teleteco. A gorduchinha soberana encontrou a testa de Bobby, viajou rumo ao gol e… subiu demais. Bola fora, fim de jogo, 3 x 3.

Todos ficaram apreensivos, mas o time do Larguinho sapecou 6 x 0 no time da Peçanha e levou o título. A Rua da Feira de Cima e de Baixo morreram abraçadas na competição. Só restava a tristeza irmanada.

Alguns meninos até choraram, outros conversavam com os olheiros de Olaria e Madureira. Cecê pediu desculpas à Pink Floyd, e Marcelo Monstro pagou sanduíche de mortadela com guaraná Baré a todos que ali estavam. Todos dormiram felizes, já sonhando com o campeonato do ano seguinte, e mais um “Xepão”, que em Ramos, uma vez por ano, era mais importante que Fla x Flu.

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16 opiniões sobre “O Clássico

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  14. a cada linha lida, me transportava para minha infancia, e com saudade das peladas de rua,
    Saudosismo,é pode ser !!!,
    mas acredito que seja de tristeza pois a mulecada de hoje trocou a bola , pelo video game, computador ,e toda essa panafernalia eletronica, que somente eles conseguem entender.

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