Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VI – Urucubaca e Pênalti

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

[Garçom, traz as cervejas.]
– E aí, cara, como é que você está?
– Vou levando, irmão, meio triste.
– Que houve?
– Terminar relacionamento sempre é muito difícil, a gente fica perdido, tão perdido quanto virgem na orgia. Nada parece dar certo. É complicado.
– Fica assim não, cara, essas coisas passam. Doem, mas passam.
– É. Tenho certeza disso. Mas me sinto só. O pior nisso tudo é sentir que eu desaprendi a chegar em mulher.
– ?!
– Sério. Não tenho mais aqueles reflexos apurados, aquela tranquilidade, o raciocínio da cafajestagem. Acho que sofri uma lobotomia na malemolência. A laranja mecânica da calhordice virou bagaço.
– Cara, isso é triste, você não pode ficar assim? Tem de voltar ao normal.
– Toda vez que tento ainda penso no passado. Não pode ser. Vejo fantasmas.
– Bicho, a primeira coisa que você tem de fazer é se desapegar. No momento da alegria, tentar ser feliz, nada de pensar no que ficou pra trás.
– Hum.
– A segunda coisa é não querer voltar ao auge agora, depois de tanto tempo afastado. Você está sem ritmo de jogo, precisa recuperar a forma antes de brilhar e ganhar estrelinhas nos jogos da vida.
– É isso, tô enferrujado.
– Você precisa de um gol urucubaca, cara.
– Como é? Que troço é esse, simpatia de São Cipriano?!
– Um gol urucubaca!  Pra espantar todos os males, todos os quebrantos. Um investimento mais fácil, uma cantada mais leve, um jogo mais ganho, nada muito elaborado. Uma pegada pra recuperar a confiança, devolver a malemolência, recuperar a marotice, parar de garotear.
– É verdade, como eu não pensei nisso antes?!
– A partir desse gol urucubaca, você retoma sua vida e progressivamente volta à ousadia. Quase um despacho do amor.
– Obrigado, eu precisava ouvir isso!
[Garçon, mais cerveja aqui]

* * *

– Agora, depois, quando você voltar à forma, lembre-se do mandamento primordial na arte da sedução.
– E qual é?
– Seduzir é igual a bater pênalti. Tem de ir com alegria e confiança. Se for com cara de triste, perde.
– Como é?
– É isso. Lembra do Zico em 1986? Cara de triste. Schweinsteiger na Champions League? Deprimido. Roberto Baggio em 1994? Tristão. Não basta ser craque, tem de ser seguro. Foi sem segurança, um abraço, perde.
– Hum.
– Pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube. Não é isso que a lenda diz? Mas muitas vezes o presidente não segura a onda, por isso surgem os batedores “alternativos”.
– Danados. É, esse é um problema.
– Você tem sempre de evitar este momento dramático, assim como perder um pênalti e ser marcado pela torcida.
– Então, o que você me sugere?
– Tranquilidade. Respirar. Nada de loucura. Olhar nos olhos, usar a malemolência, partir seguro e finalizar com atitude.
– Entendi.
– Ah, importante.
– Na hora de comemorar, nada de coraçãozinho, pelo amor de Deus. Coraçãozinho, como futebol-arte, escanteio curto e amor platônico, bem você sabe…
[gargalham]
[Garçom, mais cerveja]

____________

O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

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