Ficção

Um texto, apenas mais um texto. Ele escreveu com uma tentativa de sarcasmo, para ser visto por uma, duas, talvez cinco pessoas. Soltou o texto em uma rede social. Blog restringe o texto, pensou. Queria que mais pessoas lessem. Talvez sete ou oito pessoas o vissem. Foi dormir.

Quando acordou, viu quinhentas menções na sua rede social. Ao chegar no trabalho, já passavam de dois mil compartilhamentos, mas muito menos curtidas. Muitos na firma olhavam torto. Como fogo e querosene na palha, o texto se espalhou rápido.

Não entendia o que tinha acontecido, mas uma leve passada de olhos pelas baias denotou que todos tinham computadores ligados na rede social, olhando seu texto. Virou celebridade onde menos esperava, talvez onde menos quisesse.

Nos cochichos e buchichos da copa e do almoxarifado, já era  acusado – veladamente – de preconceituoso. Suas palavras não deixaram muita margem para dúvidas, a bem da verdade. Escreveu o texto em primeira pessoa, usou elementos de realidade. Palavras ferinas, afiadas, para criticar a lei, o governo, a vida, a democracia.

Atingiu muita gente, levantou muitas opiniões contrárias e suscitou muitos debates. Alguns foram interpelá-lo, tanto virtualmente quanto em carne e osso. Tentou se defender dizendo que era “ficção”, embora nem mesmo ele acreditasse nisso. Em seu raciocínio, virou presa para os leões e escárnio para as hienas virtuais. Não acreditava que tinha desrespeitado alguém. “Que democracia é essa?”, pensou.

Mas, no fundo, até gostou daquela exposição. Poderia ser visto como astuto, sagaz. Claro que teve apoiadores, que o defenderam variando entre o blasé até a mais virulenta das respostas. Há muitas pessoas contra o governo, a lei, a democracia. Virou o pêndulo de mais uma guerra entre extremos virtuais, onde palavras são balas e todos têm muita munição.

Seu nome passou a ser pesquisado, descobriram o que ele fazia, seus seguidores triplicaram, assim como seus detratores. Em menos de vinte e quatro horas, era tópico nacional. Uma certa alegria, era o que sentia. Virou referência, mesmo que efêmera.

No fim do expediente, continuavam olhando torto para ele. O chefe o chamou na sala. Disse que tinha lido o texto, que achou uma crítica muito grande, mas que a mãe dele seria muito beneficiada por aquela lei. E que ele, particularmente, tinha se ofendido com o texto, pois achava um descaso com sua mãe.

Ao escutar o chefe, mais uma vez explicitou que era uma obra de ficção. O manda-chuva então lembrou que as personagens eram reais, as críticas ácidas e grosseiras também e que inclusive já tinha ouvido as mesmas perambulando veementes nas mesas de bar e confraternizações entre funcionários do trabalho.

Percebendo o tamanho do estrago, ficou sem chão quando o chefe disse que já tinha pensado em dar uma promoção a ele, mas que não tinha condições de ter um braço direito no qual não acreditava nas crenças.

Arrematou, sereno, porém firme, que, por esta razão, era melhor que seguisse seu caminho. Aprendeu, a duras penas, que a ficção tinha virado realidade. E a sua realidade, a partir daquele dia, era o desemprego.

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