X9

Ele sempre foi daqueles que gostava de denunciar, de expor, de “desmascarar”, como fazia questão de dizer. Não fazia questão de ter amigos, mas inimigos colecionava com um afã inacreditável, como se fosse seu álbum de figurinhas particular.

Desde pequeno era assim, reconhecido como queridinho das professoras por ser alcagüete e dedo-duro, do colegial à faculdade. A fama ruim já o precedia. Nunca foi confidente de ninguém, mas, para muitos, deveria ser como o inconfidente – enforcado. Assim que se formou, prestou concurso público, virou policial.

Não era necessariamente um sonho, mas suas características o fizeram se adaptar rapidamente ao trabalho. Ao que se propunha, virou caxias. Uniu o útil ao agradável, mesmo sendo desagradável a muitos.

Virou informante. Dos bons. Mapeava e dedurava com extrema maestria. Ganhou merecidos elogios e condecorações. Se sentia mais forte a cada dia, e cada vez mais gostava do seu trabalho. Poucos sabiam seu nome, mas sua alcunha voava com o vento. A letra era X, o número era 9. Ele era X9.

À medida que subia na carreira seu nome foi conhecido. E começou a colecionar desafetos, tanto dentro como fora da polícia. Os bandidos o odiavam e, para ser promovido, começou a denunciar as maracutaias e mumunhas que ocorriam dentro da delegacia. Ele não conhecia a arte de guardar segredos e adorava apontar o dedo.

Conseguiu um cargo maior, virou vitrine. Vidraça. Inebriado pelo poder, mesmo quando as informações rareavam, inventava fatos, criava criminosos, dentro e fora do serviço. Se imaginou roteirista de sua própria trajetória, para que o seu filme fosse sucesso, sempre.

Sem perceber, sua cabeça foi à prêmio. As pessoas já o evitavam, inclusive aqueles que, por intriga ou interesse, forneceram combustível para seu incêndio pessoal. Estava isolado e ilhado dentro do próprio trabalho. Não tinha mais controle sobre seu roteiro, tinha virado coadjuvante de sua história.

Foi denunciado pelas falsas informações, afastado do cargo. As pessoas que antes o evitavam, olhavam inquisidoras. Começou a achar que os telefones estavam grampeados, que havia escutas em todos os lugares. Dentro de sua paranóia, se tornou refém de si mesmo.

Menos de um mês depois, foi encontrado morto com quatro tiros. A boca que não guardava segredos agora armazenava um monte de formigas. Foi enterrado como indigente. Na cova rasa, a identificação continha, por coincidência, um X e um 9. Curiosamente, até hoje não se sabe quem cometeu o crime. Ninguém denunciou.

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3 opiniões sobre “X9

  1. Pingback: X9 (via Cotidiano e Outras Drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

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