Ontem, Hoje, Sempre

Todo ser humano tem preconceitos. Corrigindo, pré-conceitos. Contra uma, algumas, várias ou todas as coisas. Depende do nível de evolução de cada um evitar que estes pré-conceitos percam o hífen e a vergonha. Às vezes, pequenos detalhes fazem com que isso ocorra.

Quando era pequeno, tive broncopneumonia. Quase morri. Deste episódio que me levou à geladeira hospitalar, guardo duas lembranças: A de que odeio comida de hospital, principalmente quando misturam arroz e macarrão; e de uma grande pessoa, que me ajudou demais.

Ele era cabelereiro, grande amigo da família. Vítima de poliomielite na infância, andava com suas muletas, sem perder a altivez. Virou meu tio de consideração. E se dispôs em vários dias a zelar por mim no hospital, contando estórias para passar o tempo, uma delas a do “menino de ouro”.

A estória girava em torno de dois meninos, o de prata, eloquente e falador, que sempre se arrependia de tudo que falava, e o de ouro, silencioso, que só se pronunciava após refletir sobre tudo que ouvira, até chegar em uma moral da história, que sinceramente não lembro qual é – a vida acabou ensinando que histórias e moral raramente andam de mãos dadas.

No meio dos respiradores e afins, aquelas cantigas me faziam dormir, até minha mãe ou avó poder substituí-lo na vigília. Além de amar meu tio, passei também a ser muito grato por isso. Ele e o namorado dele – nos anos 80, andando de mãos dadas, na cara e coragem, assumia seu homossexualismo sem dever nada a ninguém -eram parte integrante da nossa
família.

Já mais velho, nos idos de 1993/94, quando eles iam nos visitar no subúrbio, às vezes eu escutava algum gracejo e sacanagem de algum dos meus amigos. Sempre que escutava isso, eu o defendia ferrenhamente. Não por ativismo, nem por compaixão. Apenas porque cada um faz da sua vida o que quiser.

Livre arbítrio e bom senso, as duas maiores leis não escritas da vida que cada vez mais caem em desuso no mundo contemporâneo. Quando voltava pra casa, irritado, ele me dava um abraço e dizia que um dia as coisas mudariam e que as pessoas seriam mais compreensivas e respeitariam mais o próximo. “A modernidade traz a evolução”, assim falava.

Nesta época, “Filadelfia” foi aos cinemas e logo depois às locadoras. É um dos filmes que mais marcou minha vida, primeiro pelas atuações espetaculares de Denzel e Tom; depois, pela maneira como mostrava o preconceito, escancarado e, finalmente, pela música do Neil Young, demolidora. [o som do Bruce Springsteen fez mais sucesso, mas desafio você a escutar o do Neil sem encher os olhos d´água]

Muitos amigos meus reviram conceitos após “Filadelfia”. Na época que a internet e a TV a cabo passeavam por sua era cenozóica, formar opinião própria era muito mais fácil do que pegar as alheias como suas. O processo de transformação e de eliminação de pré-conceitos era lento, porém sólido.

Não é nostalgia, nem saudade, não disso. Apenas uma constatação. A tecnologia, assim como remédios, se usada sabiamente traz apenas benefícios. O mau uso, entretanto, gera efeitos colaterais insanáveis.

Atualmente, a rapidez da informação e da indignação não permitem a digestão dos assuntos. A má digestão gera diarréia na contestação. Na ânsia da fácil opinião, acabamos nos afogando na azia da ignorância. Com isso tudo, além dos próprios pré-conceitos, podemos ser vítimas ou cúmplices dos preconceitos alheios.

Há quase dez anos, migrei da minha terra natal, o contato com a família diminuiu. Tempos depois, soube que meu tio tinha sido internado e, rapidamente morreu, vítima de problemas de saúde. Seu antes namorado, agora ex-marido, disse que até o fim ele perguntava por mim, se eu estava bem, aquelas coisas de gente que nos quer bem.

Sofreu pouco, ainda bem, mas derramei lágrimas sentidas, por não poder ter contado a ele a estória do “menino de ouro” e retribuir o que ele fez anos atrás. Este é outro dos males da modernidade, o arrependimento pelo tempo perdido. Queria poder falar com ele hoje, sobre amanhã e ontem.

Hoje, eu daria um abração nele e diria que a previsão dele estava completamente equivocada. Completaria dizendo que as pessoas estão cada vez mais medievais em seus pensamentos, o hífen do pré-conceito foi demolido para um preconceito escancarado, chaga exposta no caráter da sociedade.

Ele provavelmente me daria um abraço condescendente. Riria, piedoso e me faria lembrar do “menino de ouro” e do “menino de prata”. Diria que a modernidade traz evolução, mas as pessoas continuam caretas. Ontem, hoje, sempre.

Depois de ouvir meus resmungos, provavelmente perguntaria da minha mãe, minha esposa e minha filha. Conversaria sobre o mundo moderno, contaria muitos causos e, na hora de ir embora, pediria uma carona. No carro, faria o pedido: “Coloca a música de ´Filadélfia’?”. Sim, tio, coloco.

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3 opiniões sobre “Ontem, Hoje, Sempre

  1. Pingback: Ontem, Hoje, Sempre (via Cotidiano e Outras Drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

  2. Muito o loco como você passa de um assunto para o outro, volta no um……puro modernismo…..haheaheha……..sem comparações, foi só uma piada………..muito bem colocado………”Na época que a internet e a TV a cabo passeavam por sua era cenozóica, formar opinião própria era muito mais fácil do que pegar as alheias como suas”……….

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