Cabaço

Ele era um atacante ensaboado, driblador, malemolente. Jogava no Campeonato de Ramos desde os 13 anos e nesta temporada ia estourar a idade. Tinha um sério problema: Mesmo com tantos jogos e sendo reconhecido até pelos rivais, nunca tinha marcado um gol.

Pra piorar, não marcava gols nem dentro, nem fora de campo. Aos 13, era chamado pelo nome, William; aos 14, era o Ensaboado, dos 15 em diante, ganhou o apelido que carregava como cruz no calvário: Cabaço. Agora aos 17, continuava virgem, e se acabrunhava.

No ataque do Flamenguinho da Aracati, ao lado de Paulinho Rolimã – que usava mullets ao estilo Paulinho McLaren, de quem herdou o apelido, guardadas as proporções – cansou de consagrar o amigo, mas não tinha jeito, ele mesmo não marcava gol.

E fora de campo, a situação era pior. Cabaço era apaixonado por Chandelle, uma morena de cabelos oxigenados e olhar desafiador, cujo apelido veio do fato de ser “gostosa e cremosa”, nas palavras machistas dos hormônios em ebulição.

Além da altivez e do despacho que assustava os gartotos, Chandelle escolhia seus namoricos ao bel prazer. Era independente desde nova. Seu sorriso chamava a atenção e seus seios pareciam as ondas de Pipeline estampadas nas capas das revistas “Fluir” – que eram recortadas e serviam de capa de fichário do alunado suburbano – de tão grandes e firmes.

Chandelle gostava de namorar, já tinha passado dos 23 anos e era uma “coroa” boa de jogo. Mas sabia da história e do apelido de Cabaço. “Se não acerta o gol, que é grande, imagine o resto”, caçoava. Cabaço ria tímido, enquanto era azucrinado pelos amigos. No fundo se remoía de tristeza e timidez.

E por falta de oportunidade não era. Cabaço, naqueles anos todos em que jogou o campeonato de Ramos, já tinha perdido uns quinze pênaltis. O gol e ele tinham uma relação de desamor. Mesmo assim, era um jogador muito habilidoso, muito importante para o Flamenguinho da Aracati, principalmente pelo fato de lidar bem com a “altitude”.

A Aracati era considerada a “La Paz” do Campeonato de Ramos. Tudo porque a Rua era uma ladeira. Então, os times visitantes atacavam no primeiro tempo para baixo, descendo, faziam dois ou três gols e no segundo tempo, quando iam se defender, já não tinham pernas.

O Flamenguinho, então, era sempre um time forte no campeonato, pois raramente perdia em casa. Era comum os jogos terminarem 7-6, 8-7, para eles, o que aumentava ainda mais o drama de Cabaço não ter feito um golzinho sequer.

Por outro lado, fora das quatro linhas, Cabaço não queria se iniciar num puteiro. Queria a arte, a molecagem, o toco – literalmente – y me voy. Não iria se render à mais antiga das profissões, queria provar seu valor. E, também por isso, era zoado pelos amigos.

Naquele domingo, o adversário seria a Peçanha Póvoas, lanterna do campeonato. O apelido do time da Peçanha naquele ano era “Geni”, porque estava apanhando de todo mundo. Os melhores jogadores tinham estourado a idade e não podiam mais jogar. O time só tinha vencido um jogo no campeonato. Era a oportunidade perfeita para Cabaço. Mais uma entre tantas.

O técnico Van Gogh – que tinha esse apelido porque tinha uma orelha pela metade, vítima de mordida da mulher ciumenta – escalou o que tinha de melhor, inclusive o ataque com Paulinho Rolimã e Cabaço. O jogo começou como sempre era, com a Peçanha atacando para baixo e fazendo seus gols, jogando com habilidade, trocando passes e PARÔ

[Pausa: “PARÔ” é uma regra não-escrita do futebol de rua. Quando uma velhinha ou grávida passa na hora do futebol, o jogo para automaticamente após o juiz gritar “PARÔ”. Os jogadores carregam a bolsa da velhinha/grávida – e a velhinha/grávida, se for o caso – e depois retomam suas posições. Adendo: O “PARÔ” só vale com velhinhas e grávidas. Velhinhos suburbanos conhecem a regra e se estiverem passando na rua na hora do jogo, vão tomar bolada. Fim da Pausa]

A bola voltou a rolar e o jogo se desenvolveu como sempre. O placar apontava 4-3 para a Peçanha no fim do primeiro tempo. Resultado normal. Paulinho Rolimã já havia deixado seu gol. Dois, na verdade. Cabaço? Nada.

O jogo voltou para o segundo tempo, e aí, amigo, a “altitude” da Aracati é implacável. Gols atrás de gols para o time da casa. Menos de 15 minutos e já estava 7-4. Rolimã tinha feito mais 3 gols, todos compasses açucarados, malemolentes, de triângulo, do seu companheiro de ataque Cabaço. Mas o virgem continuava virgem.

A goleada só aumentava, quando Chandelle surge triunfante na rua, voltando da padaria com a sacola de pães. Ela não é velhinha, nem grávida, o jogo não pára. Bola para Cabaço na ponta direita. Dribla o primeiro, dribla o segundo, escapa, ensaboado, do carrinho do terceiro. Rolimã se posiciona na área, Cabaço arma o cruzamento…

… quando vê Chandelle rebolativa na calçada oposta, com aquele andar de pura maresia, o Havaí materializado e Pipeline na maré alta. Ziriguidum, balacobaco, telecoteco. O guri se desconcentra. Em vez de bater de chapa, dá uma trivela na bola. O goleirão já saía pra cortar o cruzamento e se surpreende com o rumo inesperado da pelota. Ela morre nas redes. O céu escurece. É gol de Cabaço!

Ele não sabe nem como comemorar. Se desvencilha dos braços e abraços. Mira Chandelle, corre pra ela e rouba um beijo. Ganha um tapa na cara. Ela aperta o passo. Todos vibram, Rolimã engraxa o tênis do amigo. Uma nova era começa. Agora a chuva é temporal, e todo céu vai desabar. Raios começam a aparecer. Jogo interrompido. 9 – 4, resultado final.

Aquele domingo já estava ganho, Cabaço tinha feito seu gol. Quando vai pra casa tomar banho e tirar a roupa molhada, cruza com Chandelle. Pela primeira vez recebe um olhar malicioso da moça, com interesse. Sorri, agora é confiança pura. Pisca, é retribuído.

Quando chega em casa, já sabe que sua grande partida será no bailinho à noite. Chandelle sempre está lá. Será o momento de convidar a moça pra sair, tomar um refrigerante, quem sabe algo mais? O ensaboado menino quer virar homem feito e vai buscar seu gol fora de campo.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos e suas verdades fictícias, leia “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Se quiser conhecer as desventuras do “Ziriguidópolis” na Taça SP de futebol Junior, leia ali, no link.

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15 opiniões sobre “Cabaço

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  11. Nao foi uma leitura. Foi uma alegria, digna de peladeiros de domingos de nhoque.
    Esse ‘finalizou’ com as agruras dessa fase de transição da Vida, ainda mais, que na outra ponta aguardam mulheres capazes de ‘comer’ orelhas (ui!), redondinho.
    Parabéns e não ligue para o que o ‘moço’ acima disse (filho? ligue menos – rs). Certas “emoções” estão acima de qualquer regra gramatical…
    Fique bem, Norma
    (cheguei aki via Beto Bertagna a 24 quadros)

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