Número 2

Poucos momentos são tão angustiantes na vida quanto a vontade de ir ao banheiro. A aflição é ainda maior quando o lavabo não é algo palpável no momento. Naquele dia, ousado, ele tinha almoçado feijoada, caprichado no tempero. Pegaria um ônibus no fim da tarde. Imprudência, imperícia, negligência. Dor de barriga.

Saiu do metrô caminhando em ritmo de marcha atlética, passadas rápidas ritmadas. Seu intestino grunhia mais forte do que vocalista de trash metal. O corpo queria despachar o que fazia mal, a mente perdia o controle.

Neste diálogo entre corpo e mente, era necessária frieza. O suor, aliás, já descia frio. Pingava. Adentrou à rodoviária. Um pequeno passo para humanidade; para ele, passos gigantescos. Já era mais que vontade, era necessidade. Se houvesse alguma medição, estaria batendo o recorde da marcha atlética. Sambava andando. Passista.

Finalmente chega na porta do banheiro. Se emociona, com cuidado para não perder o controle. Checa as portas, todas trancadas. Apenas uma aberta. Na sua mente, começa a tocar “Carmina Burana”. Um senhor entra, irmão de desespero, olha para a mesma entrada, se entreolham.

Correm em câmera lenta, medindo o esforço para evitar um estrago. Uma dezena de passos, um tranco, ganhou a dividida, consegue entrar no banheiro. Tranca a porta. Vitória. Tira as calças mais rápido do que parada nos boxes de equipe de fórmula 1. Senta no vaso. Respira aliviado.

Não há tempo para mais nada. A única torcida é para que a atividade fisiológica saia igual a salto olímpico ornamental: sem espalhar água, mergulho profundo, salto limpo sem sujeira. Acontece exatamente o contrário: Puro espalhafato.

Agradece a Deus, aos santos, aos orixás. Não passou vergonha. Respira fundo, um misto de alívio e satisfação. Na hora que vai se limpar, procura e nada. Cadê o papel? Não havia papel. As lágrimas empapam os olhos. Não tinha sequer comprado jornal naquele dia. E agora? Se pergunta, procurando uma resposta tão rápida quanto higiênica. Mais um suspiro fundo, de resignação.

As opções eram nulas. Situações extremas exigem medidas extremas. A cueca, presente de aniversário da mãe, era a única alternativa. Se era única, aliás, não era alternativa. Era a cueca da sorte, usada em todas as reuniões importantes, aliada em grandes momentos de superstição.

O sacrifício era inevitável. A roupa de baixo que foi coadjuvante em grandes momentos, quase um Kevin Bacon em forma de cueca, saía da vida para entrar na história. Uma história suja, é verdade, mas ainda assim relevante. Aliviado, asseado – e desguarnecido – ele segue rumo ao ônibus que o levará ao destino.

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