Cenas do Banco da Praça

– Eu amo você.
– Eu também amo você.
– Você vai ser fiel a mim?
– Não.
– Não?
– Nunca prometi fidelidade, nem quero que prometa.
– Mas por que?
– Porque não. O ser humano é fadado ao erro.
– Hum…
– Prometo lealdade, não te expor, não te humilhar, não te maltratar, não te fazer infeliz.
– E tem diferença?
– Tem.
– E qual é?
– Lealdade é a capacidade de se valorizar o que tem de bom, fidelidade é a tentativa de aprisionar o que se tem de ruim.
– Complexo.
– Nada. Mais simples do que parece. Traição é perdoável, humilhação não.

* * *

– Você sempre foi estranho. Não se importou da gente transar no primeiro encontro.
– Achei ótimo. Poupou meu tempo e o seu. Imagine aquele esquema anos 80 antes de fazer sexo?
– Né?
– É.
– Aliás, discutir sobre sexo no primeiro encontro é igual música do Information Society, TV Pirata e camisa da Bee, só lembra os anos 80.
– É mesmo. Mas tem muita gente antiquada no mundo.
– O mundo é uma Festa Ploc de concepções.

* * *

– Você vai ficar comigo até ficarmos bem velhinhos?
– Não sei.
– Por que?
– Porque não sei se você vai me aturar até lá.
– Eu vou te aturar. Você vai me aturar?
– Vou.
– Vai mesmo?
– Vou.
– Promete?
– Prometo. Salvo exceções.
– Que exceções?
– Se eu tiver Alzheimer, por exemplo, não vou lembrar que prometi.
– É verdade. Espero que você nunca tenha isso, é um inferno.
– Eu também espero que minha lucidez se aprisione na minha velhice.
– Hum. Bonito isso.
– Mas se eu tiver Parkinson, por exemplo, finja que é apenas meu amor por você me fazendo tremer.
– Que piegas.
– Sidney Magal gravaria isso.
– Não.
– É. Não.

* * *

– Você vai ficar comigo até o fim da minha vida?
– Não. Vou te carregar comigo até o fim da minha vida.
– Que lindo isso.
– O lado ruim disso é que isso ocorre inclusive com o divórcio. [gargalha]
– Sempre uma piadinha pra estragar o clima de romance.
– O romance é cotidiano, e o que falei também foi piegas.
– Mas Sidney Magal realmente gravaria isso.

* * *

– Sempre estaremos juntos?
– Sim, sempre. Mesmo que seja em algum lugar que só a gente saiba.
– E isso existe?
– Sempre existe, é assim que se salva o relacionamento, em uma trincheira longe da realidade.

* * *

– Seremos sempre muito felizes?
– Não. Felicidade não é ser, é estar.
– É meio clichê isso, não?
– Tudo que deu certo nessa vida é clichê. As tiradas geniais geralmente são aquilo que gostaríamos que desse certo.
– Hum. como diferenciar?
– Amor é clichê, paixão é uma tirada genial.
– Será?
– Eu li o texto de um amigo uma vez, que resume o amor como um milagre. É uma definição de rara felicidade. E ele tem toda razão. O amor é loteria, é o milagre na mais pura essência.
– Nós somos um clichê?
– Espero que sim. Se não formos, que sejamos a tirada mais genial.
– Amém.
– Quer um sorvete?
– Quero.

___________

“O amor é um milagre” é uma frase que roubei do Marvio e pode ser lida mais detalhadamente no contexto aqui

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4 opiniões sobre “Cenas do Banco da Praça

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