Poé

Ninguém soube direito de onde ele veio. Se tinha mãe, não se conhecia. Pai, muito menos. Aliás, nem o nome ele fazia questão de dizer, apenas o apelido. Poé. A origem? Completamente incerta e não sabida.

Pedia esmola nos sinais vermelhos do bairro. Com as moedas, ia jogar Street Fighter 2 nos fliperamas da região, em frente à estação de trem. Sempre jogando com o gordão japonês, sempre vencendo dos meninos. Ganhava tanto que irritava. “Cuscuz”, dizia, sem esboçar sorriso, quando finalizava mais um desafiante.

Aquele garoto começou a chamar a atenção dos meninos do bairro. Pedia para entrar nas peladas, mas por preconceito ou estranheza, era sempre barrado. Até que um dia, pra completar o time em dia de chuva, deixaram Poé jogar.

Mirrado, desnutrido, pouquíssimos dentes na boca, olhar triste. Idade desconhecida, mas presumíveis 15 anos. Poé era verborrágico. Falava pelos cotovelos, parecia ter engolido um rádio. Dono de pernas tortas, como Garrincha, aproveitou a oportunidade e chamou a atenção de todos. Driblava com maestria. Não gostava de fazer gols. Preferia costurar os adversários com habilidade e entregar a bola para o artilheiro marcar.

A partir daquele dia, começou a cavar seu lugar no bairro. Como não tinha casa, foi escolhido para o time da Doutor Noguchi, que estava com pouco elenco. O técnico, um passista da Imperatriz chamado carinhosamente de “Diplomata”, fez questão de integrar o guri, encantado com o talento do garoto. “Rabisca, Poé”, era o que ele gritava sempre, incentivando o menino.

Rabisca, Poé.

E ele rabiscava, escrevendo seu conto por ali, mesmo sendo analfabeto. Poé ganhou ainda mais respeito das crianças do bairro, quando em uma das partidas do campeonato, encarou o zagueiro truculento cujo apelido era PCO. PCO era chamado assim porque, bem nascido, sempre levava em sua lancheira pão com ovo para comer no recreio do colégio. As iniciais do lanche viraram sua alcunha. Contra PCO, geralmente passava a bola ou o jogador, nunca os dois.

PCO tentou intimidar Poé com palavras preconceituosas. Ele nem se abalou. E ainda debochou. No primeiro encontro entre os dois no jogo, passou a bola, Poé foi derrubado; no segundo, PCO deu um tranco em Poé no muro chapiscado, ralando o menino todo. Saiu rindo. Poé sangrava, mas sorriu também. No terceiro encontro entre os dois… bem, não teve terceiro.

Poé parou a bola e pedalou, atraindo PCO. Quando o galalau armou o bote, tomou um direto do menino mirrado, caindo estatelado no asfalto, sem som e sem imagem. . Quando voltou a si, o time adversário todo estava gargalhando. PCO estava desmoralizado e nunca mais foi tão violento.

Rabisca, Poé.

O morador de rua virou xodó do bairro. De vez em quando dormia na igreja das Mercês, às vezes no terreiro de macumba. Não ficava tão solto por aí. A diretora da escola pública – curiosamente mãe de PCO – arranjou uma vaga para ele. Poé nunca tinha estudado. Não aguentou mais de dois meses na escola, com vergonha. Mas conseguiu aprender a escrever seu apelido neste meio tempo. Quando perguntavam seu nome, não respondia. Sempre se denominou Poé.

No campeonato, o time ia cada vez melhor. Foram incontáveis as vezes que Poé driblava e entregava para os companheiros fazerem gols. O repertório de truques com a bola era enorme. Nunca ganharam o título, mas ele virou ídolo do time.

Ganhava roupas, comida, era conhecido do bairro. Fazia pequenos serviços para as senhoras e senhores da região. E aos domingos, virava mais um dos inúmeros garotos que disputavam o campeonato. Já tinha amigos e desafiava o preconceito comum.

Rabisca, Poé.

Depois de dois campeonatos, Poé começou a sumir. Aparecia muito poucas vezes. Diplomata esperava que ele viesse, era seu último ano no campeonato, pois iria completar presumíveis 18. Algo estava estranho. Uma bermuda de marca aqui, um tênis de arco-íris ali, uma marra que não existia. Boa coisa não era. Quando um dos meninos foi assaltado no bairro, Poé apareceu devolvendo o relógio do guri. E ainda deu uma surra no larápio.

Quando uma das velhinhas que Poé ajudava o viu com relógio, bermuda e tênis de marca, puxou sua orelha e passou uma descompostura daquelas. Poé não disse nada. Apenas pediu desculpas. E depois a benção. Mesmo com a marra, o menino de rua que fora acolhido ainda morava naquela alma. De certa forma, aquelas broncas o confortavam. Era sinal de que alguém se importava. Ali em Ramos, muita gente se importava.

Rabisca, Poé.

Apareceu depois com uma morena daquelas que parava o trânsito, deu um abraço nos amigos, até mesmo em PCO. Cordãozão de ouro, volume na cintura, embaixo da blusa. Deu boa tarde a todo mundo, recomendou juízo. Sorriu despreocupado o sorriso desdentado. Subiu numa moto da moda, saiu por aí, não sem antes tomar mais um belo esporro das donas de casa do bairro.

Talvez quisesse ser alguém, algo mais que um apelido. Queria dar certo de alguma forma, ganhar o mundo por algum caminho dentre todos os descaminhos. Poé queria rabiscar sua própria história e deixar de ser, aos olhos alheios, rascunho de cidadão, rasura de ser humano.

Rabisca, Poé.

Muitos meses depois, explodiu uma guerra do tráfico entre facções rivais em Ramos. Na capa de um daqueles jornais que saem sangue se amassar, estavam vários corpos estirados, dentre eles foi reconhecido o de Poé, cravejado de balas.

Jornal exposto nas bancas do bairro, com a matéria descrevendo “…um dos mortos, sem documentos, sequer conhecido pelo nome, chamado vulgarmente de Poé…” e muitos moradores chorando e se lamentando como se perdessem um ente querido, alguém próximo. E era mesmo.

Todos se sentiram um pouco fracassados e culpados, queriam ter ajudado mais aquele menino mirrado que se foi do jeito que veio, sem ninguém saber direito como e porquê. Diplomata, muito abalado, resumiu o sentimento do bairro.

“Rabiscaram Poé.”

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos e suas verdades fictícias, leia “Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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