Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VIII – Nome Artístico

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, cara, beleza?
– Uma ressaca desgraçada, tirando isso, tudo bem.
– Quer uma cervejinha pra rebater?
– Mas claro.
– Que houve?
– Lembra daquela festa gigante, com bastante gente famosa, que alguns amigos nossos foram convidados?
– Sim, claro. Inclusive fui convidado, mas não pude ir.
– Pois é, eu não fui convidado, mas fui. Com seu nome, aliás.
– Mas que filho da puta. [risos] E a festa, foi boa?
– A festa foi sensacional. Whisky 18 anos, vinho da melhor safra, cerveja só daquelas gourmets, que depois do décimo copo ficam com o mesmo gosto da mais sórdida cevada.
– Aí sim. Mandou ver na comida.
– Sim. Tirei a barriga da miseria.
– E a mulherada?
– Cara, sensacional. Muitas mulheres bonitas. Coisa linda de ver. Eu preciso, inclusive, te contar uma coisa.
– Ih, rapaz, lá vem bomba.
– É algo sério, não ria.
– Pois conte, meu amigo.
– Estava eu lá, bebendo meu whisky, fumando meu cigarro, sentindo o ambiente, quando a avisto. Um monumento. Estava de salto alto, o que a fazia parecer ainda mais alta. Cabelos loiros, lisos, sedosos, mac…
– Está parecendo comercial de shampoo. Deixe de ser prolixo. Prossiga.
– Então, ela era gostosa demais. E começou a trocar olhares comigo.
– Hum.
– Começamos a conversar. Sobre a vida, o futebol, a situação da crise no Egito, quem era o melhor calouro de American Idol, todas essas coisas comuns.
– Comuns, Sei. E ela?
– Ela debateu cada assunto com um refinamento de dar gosto. Inclusive disse que morou na Espanha três anos. Uma moça de garbo e elegância.

– E você?
– Tomei mais um whisky e tomei coragem. Dei uma cantada daquelas, cheia de malemolência. E ela correspondeu.
– Danado.
– E o beijo, cara, um beijo daqueles que só se vê nas revistas Julia, Sabrina e Bianca. Que beijaço, fiquei leve. Um shiatsu bucal.

[Garçom, mais cerveja]

– “Shiatsu bucal”. Entendo. E depois?
– Sugeri a ela que saíssemos da festa e fôssemos para um lugar mais calmo, ela me disse que precisava contar um segredo antes de ir comigo.
– Segredo? Ih, rapaz. Ela era casada?
– Não, pior.
– Ela tinha alguma doença grave?
– Não.
– Que segredo era esse?
– Ela disse que o nome que me deu era “artístico”, tinha sido rebatizada agora. Antes ela se chamava Antônio e que morou três anos na Espanha se prostituindo. Mas que tinha acabado de se operar e estava se sentindo virgem.
[cara de espanto] E você? O que falou?
– Cara, depois da quantidade de whisky que tomei, me lembrei que tinha entrado na festa e me apresentado a ela com seu nome. Ou seja, também estava com meu “nome artístico”. Não titubeei.
– Mas que filho da puta!
– A levei pro motel do mesmo jeito. Com seu nome, claro. Artisticamente, claro.
– Canalha!
– E, olha, você foi muito liberal por ter ido ao motel com uma moça operada, mas ela disse que foi ótimo.
– Miserável! Isso não se faz.
– Fica tranquilo, eu pago a conta.

* * *

[Garçom traz a saideira e a conta]

– Mas essa garrafa de whisky 18 anos saiu de onde? A gente não pediu.
– Então, usei seu nome “artisticamente” e abri um clube do whisky em meu nome, de presente. Como você está pagando a conta, achei justo…
– Você é rancoroso, hein?
[Gargalham]

__________

O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

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