Rasura

Tudo o que ela queria era que ele lesse a carta que escreveu. Tantas palavras, tantos sentimentos que escorreram naquelas letras. Ele nunca prestou atenção. Talvez fosse avoado, talvez fosse idiota. Mas nunca observou o amor que estava ali, tão perto.

Eles trabalharam juntos muito tempo. Na convivência do dia-a-dia, ela desenvolveu uma admiração enorme por ele. Nas mínimas coisas e detalhes, filigranas, ela observava que tudo aquilo que gostava em alguém estava reunido ali, naquele homem. Admiração virou paixão.

E quanto mais conviviam, mais a paixão aumentava. E ele não percebia – ou fazia questão de não demonstrar. Aquele sentimento começava a sufocá-la e ela não conseguia mais manter uma atitude normal perto dele, que, ao contrário, demonstrava a mesma emoção do Cigano Igor eufórico.

Um dia, numa festa da empresa, depois de alguns drinques a mais, ela decidiu se declarar. Respirou firme, tomou atitude e caminhou com passos firmes em direção a ele, mas o viu beijando uma colega de trabalho de ambos, que já tinha dito aos brados que queria “pegá-lo”. E pegou. Ali desmoronou toda esperança e coragem.

Na semana seguinte, decidiu aceitar a proposta de outro emprego e mudar de estado. Se despediu de todos, inclusive dele. Aproveitou que ele foi para uma reunião e escreveu uma carta detalhada, deixando todos os contatos que ele tão bem conhecia e se declarando de uma maneira que ele nunca percebeu.

O único medo dela era que ele não sentisse sua falta. Escreveu com todo o carinho do mundo. Até criou uma ficção em torno disso, demonstrando ainda mais suas virtudes. “Na ficção eu realço minha verdade. Na realidade só perco pras mulheres de mentira.”, pensava, magoada. Deixou a carta delicadamente na mesa dele. Quando ele voltou da reunião, entulhou a mesa de papéis e anotações, como sempre. Não notou o presente dela.

Tudo o que ela queria era que ele lesse a carta que escreveu. Tantas palavras, tantos sentimentos que escorreram naquelas letras. Ele nunca prestou atenção. Talvez fosse avoado, talvez fosse idiota. Era ambos. Tenta ligar pra ela, pra saber como está, mas não tem coragem.

E não viu a carta que repousou em sua mesa durante aqueles dias, antes de virar um papel órfão e amassado, jogado fora pela faxineira no fim do expediente. Até hoje ele olha pra mesa que era dela, engole o choro e se lamenta não ter dito o quanto era louco por aquela mulher, que agora está tão longe.

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