Letra e Música

Ele tinha abandonado o violão há tempos. Não dedilhava as seis cordas desde o fim do último relacionamento, que não sabe até hoje porque terminou. Como um tapa na orelha, só sentiu a pancada e nem viu de onde veio. Por alguns meses, perdeu a vontade de ver, de vir, viver e ser.

Durante algum tempo, tempestade de si mesmo, viveu para entender o que tinha acontecido. Não tinha vontade de comer, passou a cumprir tabela em vez de viver. Acordar, trabalhar e dormir, sem buscar um sol para a alma cinza, chumbo e nublada.

Quando se envolvia com alguém, eram histórias fugazes, karaokê de tudo inédito que tinha vivido antes. Passava o tempo, mas não fechava a cicatriz. Até que a viu, numa dessas tardes de outono. O coração descompassou perdidamente, mas voltou a pulsar como metrônomo da alma.

No meio daquela tarde que passou como um piscar de olhos, descobriu muito mais semelhanças do que divergências. Ele voltou a sorrir, que era coisa rara. Pela primeira vez em muito tempo, saiu dos escombros do seu desatino emocional. Ele tinha abandonado o violão há tempos, mas as seis cordas voltaram a pulsar naquele dia. Riff.

* * *

Ela não tinha parado de escrever desde o último relacionamento. Era compulsiva, até. Em vez de chorar por qualquer coisa, derramava lágrimas no papel. Além de bom disfarce, ajudava no trabalho e na catarse. Nos encontros que a vida traz, tinha se desencontrado.

Durante algum tempo, seca de si mesma, viveu para entender porque não tinha acontecido. Tentava não esmorecer ou se martirizar com a verdade dolorosa que parava, empacada, à sua frente. Preferia mentiras, mesmo as insinceras. Não tinha nada.

Quando se envolvia com alguém, só queria respostas, que nunca chegavam. Ela remexia na casca para abrir a cicatriz, pois o sangue a fazia sentir viva e a dor pulsava na alma. Até que o viu, numa dessas tardes de outono. A boca secou de tanto sorrir e subitamente aquele livro foi fechado. Soneto invisível.

No meio daquela tarde que passou como um piscar de olhos, descobriu muito mais semelhanças do que divergências. Voltou a chorar de alegria, coisa rara. Pela primeira vez em muito tempo, abriu as portas do seu tino emocional. Ela escrevia compulsivamente há tempos, mas desta vez a história se escreveria por si. Estrofe.

* * *

Num final de tarde qualquer eles passeiam juntos, sorrindo, implicando, se divertindo. Aguardando o por-do-sol com chopp gelado como testemunha. Se complementam nas semelhanças e divergências. Letra e Música.

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3 opiniões sobre “Letra e Música

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