Desapego

– Cadê minha camisa do São Jorge?
– Aquela camisa verde? Com um São Jorge bem grande na frente?
– É. Ela mesma.
– Hum, não sei.
– Tem certeza?
[olhar desviado] ahn… tenho…
– Tem certeza mesmo?
– ahn…
– Desembucha.
– Joguei fora.
– O que?
[mentalmente, Carmina Burana invade a sala] 
– Joguei fora, uai. Tava com uma mancha de água sanitária horrível.
– A camisa do meu santo de devoção. Isso é um crime de lesa santidade! Você não vai pro céu.
– Esqueceu que sou atéia?
– Atéia bundona, né? Basta bater uma porta que você sai correndo assustada.
– Hunf. A camisa estava muito feia, parecia um paralelogramo de tão disforme, tinha mais de dez anos, pra que ficar com ela? Compramos outra.
– Mas a loja faliu!
– A gente acha uma outra loja que venda. Sem dramas.
– Aquela camisa tinha história, me acompanhou por uma década.
– É apenas um bem material. Você tem mais imagem do santo que a própria igreja.
– Hum.
– Tô sentindo falta daquela minha cueca preta também.
– Aquela furada? Foi pro lixo!
– Porra, a cueca não! È a cueca da sorte! Quando consegui esse emprego, fui com ela! Quando o Flamengo ganhou o título de 2009, estava com ela! Quando fizemos aquela viagem dos sonhos, eu viajei com ela!
– Pois é. Mas os furos da cueca já eram maiores que o buraco da camada de ozônio.
– Você não entende. Aquela cueca era mágica. Era mística.
– Bem, você há de convir que ela não tem poderes de regeneração, estava parecendo um saco de batatas de tão furada. Daqui a pouco iria se desintegrar sozinha.
– Não pude nem me despedir da cueca da sorte, foram tantos momentos bons.
– Esqueça. Já está repousando solenemente em algum aterro sanitário, dormindo com os peixes podres.
– Minha cueca virou uma versão sem glamour de Luca Brasi.
– A vida é assim, triste.
– Estou me sentindo apunhalado.
– Pare de frescura. Você jamais tomaria coragem de fazer algo desses. Inclusive joguei fora mais umas dez cuecas. E coloquei pra doar umas quinze camisas, dez bermudas, cinco shorts…

[faz uma descrição detalhada, sádica e torturante do inventário de doações]

– Apenas uma pergunta: Tinha alguma camisa do Flamengo?
– Não, estou apenas doando roupas e jogando fora cuecas. Não pensei em jogar fora meu casamento.
– Ainda há uma noção do perigo, embora você ria na cara dele de vez em quando.
– Uma leve noção. [gargalha]
– Estou triste
– Pare com isso, você tem de praticar o desapego. Doei muitas coisas minhas também.

* * *
– Você viu aquelas minhas revistas de moda?
– Aquelas dos anos 2000, bem no comecinho?
– É.
– Levei pro sebo.
– Como é? Você ficou maluco?!
– Ué, tava ocupando espaço. Pratiquei o desapego. E além do mais, hoje em dia é tudo moda retrô, vintage, essas palhaçadas. Quando voltarem à moda a gente vai ao sebo e compra novamente.
– [xingamentos incessantes]
– [gargalhadas]
– [mais xingamentos]
– Mentira, guardei as revistas no quarto dos fundos.
– Já estava quase pedindo divórcio.
– Sem dramas. É bom né? Desapego nas coisas dos outros é refresco.

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