Executivo

Logo pela manhã, coloca o terno, daqueles italianos, bem cortados. A camisa impecável com suas iniciais no lado esquerdo, sem bolso, porque camisa com bolso é coisa de gente mal-sucedida. A gravata, com nó windsor duplo. Aquelas tecnicalidades, pompas e circunstâncias de sempre.

Liga a TV no noticiário econômico, assiste a todos os indicadores financeiros, discute com a mulher – bonita, ex-participante de concursos de miss – que o café não está do seu jeito. Tem de ser espresso macchiato, afirma, arrogante e meticuloso. Há sempre um ar de empáfia na sua voz. Tudo tem de ser do seu jeito. Checa mensagens no seu telefone de última geração. Hora de ir para o trabalho.

Sai do apartamento, recém-financiado em prestações a perder de vista, de frente pro mar na zona mais cara da cidade. Pega o carro, importado, último modelo, 0 a 100 em alguns poucos segundos. Zero. Cem. Poucos Segundos. Engarrafamento. Compra o jornal.

Liga o rádio na estação de notícias da moda, para escutar algum comentário político de algum cineasta frustrado, ou então um comentário econômico de algum jornalista deslocado. Na verdade, quer saber alguma indicação de vinhos, poque gosta de manter a pose de enólogo. Sofisticado.

Dirige mais alguns quilômetros, passa em frente ao coração financeiro da cidade. Outra dezena de quilômetros. Uma praça, relativamente vazia. Estaciona o carro. Caminha até ela. Senta-se no banco da praça. Observa o balanço das poucas crianças ao redor. Desarma a pose. Coça a cabeça.

Abre o jornal e procura empregos. Nada à sua altura ou na posição que estava acostumado. Respira fundo e se pergunta até quando vai conseguir manter as aparências. Ainda não contou à mulher que perdeu o emprego. Checa no telefone se algum de seus currículos enviados recebeu retorno positivo.

Enquanto seu olhar perdido se enche de angústia e ansiedade, caminha pela cidade a esmo durante o dia, fazendo as contas e calculando até quando o dinheiro vai durar. O tempo, que antes era velocista, hoje é fundista. Prova de resistência, maratona.

O fim do dia se aproxima e nenhuma resposta nova. Agonia é sua parceira. Hora de voltar pra casa, de fingir normalidade. Sai da praça e vai buscar o carro no estacionamento. Antes, pede um café pingado. Está aguado. Aprende a duras penas que nada é do seu jeito.

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