Carta ao Céu

Não tenho lamentações. Essa é uma das coisas que você me ensinou. Colocar o veleiro no mar da vida e não olhar para trás. Enfrentar tempestades e calmaria com a mesma altivez e sobriedade. Talvez a lição maior de todas.

E foram muitas lições. De sempre oferecer um sorriso, mesmo quando se está esfacelado. De ser educado, polido e gentil, porque mesmo que não se tenha beleza e riqueza, a educação abre portas, e ajuda a forjar grandes e perenes amizades.

O ensinamento de ser sempre leal. Aos princípios, às pessoas queridas. Ser tolerante. Ser pacífico e evitar atacar, mas contra-atacar para se defender, de preferência para resolver a questão. Sempre olhar nos olhos, nunca baixar a cabeça.

Sempre debater sem ofender. Respeitar a discordância e aprender com ela, seja para reforçar convicções, seja para mudar de opinião. Ler. De bula de remédio a calhamaços de papel. De histórias em quadrinhos a livros acadêmicos. Ler sempre, porque cultura e conhecimento ninguém pode tirar.

Nunca desistir. Mesmo nas situações mais difíceis. O problema sempre pode ser superado ou contornado. Basta botar a bola no chão. Nunca negar quem se é. A submissão é o pior pecado que se pode ter. Submeter é um pecado tão grande quanto.

Respeito é bom e se gosta. A si e aos outros. Rir com, nunca rir de. Mesmo nos piores momentos. Sempre enfrentar os demônios. O pior inimigo somos nós mesmos, você dizia. E o maior barato de ser humano é a lucidez, em qualquer situação.

Tudo isso, tantas vezes, desde pequeno. Compartilhando histórias, o amor pelo mesmo time de futebol, sorrisos e causos. Se preparar para os imprevistos, dos piores aos melhores. Saber lidar com eles para poder surpreender e sempre se surpreender.

Ter orgulho de quem nos quer bem, ignorar quem não nos quer bem, sabendo que a vida é feita de opções, nossas e dos outros. Seguir em frente, porque o futuro é sempre um mundo novo e a novidade nos mantém vivos.

Valorizar o trabalho, sempre, porque o ganha-pão é nobre e, principalmente, mantém a sanidade, mesmo que seja insano. Caminhar com passos firmes mesmo quando se anda no escuro.

Obviamente escorrego em todas estas lições, mas tento utilizá-las sempre e as uso como bússola a cada erro que cometo. Sem me penitenciar, mas evitando repetir besteiras. Porque errar a mesma coisa várias vezes e dar murro em ponta de faca é falta de inteligência.

Você já sabia que o destino infalível se aproximava. A idade é implacável e sua inteligência já estava aprisionada em um corpo físico que não aguentava mais seu brilho. O último telefonema, com tom de despedida, até não ouvir sua voz, já debilitada.

Seguindo outra das grandes lições que você me ensinou, nunca me privei de dizer o quanto te amava e quanto era grato. Então, não tenho o gosto amargo de ter esquecido de falar algo. Tenho apenas a tristeza de estar longe quando da sua passagem. Queria ter dado mais um beijo, mais um abraço e feito mais um cafuné.

Vai, descansa em paz, seja feliz, onde estiver. Quando você me ensinou a lidar com a morte, disse que o vô era uma estrela no céu. Agora, vó, escrevo ao céu, porque verei duas estrelas em todos os momentos.

Por aqui não estou bem, mas vou ficar. Porque sei que o veleiro do mar da vida tem de navegar e superar esta pequena tempestade causada pelo meu egoísmo de lhe querer por perto, mesmo sabendo que você descansou. E voltarei a brilhar os olhos em breve. Afinal, nem você, nem eu, temos lamentações. Entre nós, só amor.

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8 opiniões sobre “Carta ao Céu

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  4. Meus sentimentos. Não sei se vc conhece o texto abaixo. Achei-o digno da tua perda.
    A dor passará. A saudade só ameniza. Faz parte da tua história.
    Fique bem, Norma

    P.S.: via Beto bertagna a 24 quadros.

    “Um Navio
    Rabino Henri Sobel

    Imagine que você está à beira-mar e você vê um navio partindo
    Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando e afastando, cada vez mais
    longe. Até que finalmente aparece apenas um ponto no horizonte
    Lá onde o mar e o céu se encontram
    E você diz: “Pronto, ele se foi”

    Foi aonde? Foi a um lugar que sua vista não alcança.
    Só isto.
    Ele continua grande.
    Tão bonito e tão importante como era quando estava com vocêA dimensão diminuída está em você, não nele
    E naquele exato momento em que você está dizendo “ele se foi”, há outros
    olhos vendo-o aproximar-se, outras vozes exclamando em júbilo:
    “Ele está chegando””

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  5. Pingback: Carta ao céu (Cotidiano e Outras Drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

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