O Protesto

Fazia tempo que o caminhão de lixo não passava em Ramos. O cheiro imundo e alguns bichos já passeavam pelas ruas, trazendo indignação no povo. Na Rua da Feira, após a referido mercado social, o cheiro de peixe misturado com a xepa já trazia náuseas na tradicional sociedade suburbana.

Naquele domingo, a Rua da Feira de Cima jogaria mais uma partida do campeonato, contra a Doutor Noguchi. Entretanto, pouco antes do horário marcado para o jogo, a rua estava tomada de senhorinhas e coroas com seus cartazes. “Queremos limpeza urbana”.

O buruçu estava armado. O bububu no bobobó. O bar do português Acácio fechou. Desceu uma galera de outras ruas para encorpar o protesto. As palavras de ordem foram gritadas: “Não é mole não, Ramos não é bairro de lixão”. “O povo unido, jamais será vencido” “Eu sou brasileiro, com muito orgulho…” Não, essa não, aí já é mancada.

Até um senhor que tinha sido cabo nos tempos de repressão saiu pra rua, gritando que “nos tempos da ditadura não acontecia isso”. Pink Floyd, o técnico riponga da Rua da Feira de Cima se indignou, mas, antes que houvesse um conflito, a esposa do cabeça branca convocou o ancião milico para sua residência, porque começaria mais um episódio de “Samba de Primeira”, marcando a idiossincrasia natural do carioca.

Os times da rodada do Campeonato de Ramos se indignaram com o protesto na rua, em cima do campo. O futebol das ruas do bairro era sagrado. Logo, havia um protesto e um contraprotesto. As bandeiras dos clubes estavam agitadas, até que alguns manifestantes gritaram “bandeira de clube não pode!” “Como não pode?”. Mais um desentendimento. Os brados estavam cada vez mais altos.

Os técnicos dos times, entre eles Pink Floyd, Marcelo Monstro, Diplomata, entre outros, estavam tentando uma solução pacífica, e quando a coisa ia descambando para os empurrões, se irmanaram e disseram que nas senhorinhas e coroas ninguém bate, que o inimigo era outro. A molecada de Ramos colocou o rabo entre as pernas e pediu desculpa para as tias.

Mesmo sendo domingo, chegou uma equipe do RJTV ao local. Uma senhorinha mais exaltada mandou seu recado na TV, enquanto as pessoas gritavam que o povo não era bobo, enquanto comentavam, nos intervalos, sobre o desfecho da última novela. Depois de 3 horas de muita gritaria e confusão, chegou finalmente o pessoal do lixo.

E o pessoal do lixo quase foi linchado. Muitos gritos, xingamentos, sacos de lixo voando como shurikens. A balbúrdia. Um gari ensejou arremessar o saco de volta, mas desistiu ao ouvir as palavras de carinho de Marcelo Monstro: “Se acertar uma senhorinha eu vou te meter a porrada!”

O secretário da cidade dava entrevista ao RJTV, enquanto era carinhosamente agraciado com gritos diversificados que variavam entre “filho da puta” e “filho da puta”. Gaguejava em frente as câmeras e seu terno importado de lã fria e camisa com abotoaduras já encharcava pela cortesia do sol inclemente.

No meio da confusão, quando as coisas não pareciam ter solução, todos lembraram que os garis também são do povo, gente como todos e que a culpa era do secretário, que tomou um saco de lixo na cabeça e se retirou urgentemente. Os garis tiveram seu nome gritado: “Garis, nossa luta também é sua” Alguém propôs: “Que tal um jogo entre a seleção do
campeonato de Ramos e os garis?”

Sugestão aceita. Após três horas de trabalho, que coincidiu com o entardecer, os garis tiraram as botas, pegaram shorts emprestados e iam jogar contra a seleção do campeonato, para finalizar aquele dia turbulento em paz. A rodada tinha sido adiada, mas haveria futebol em Ramos.

Pela primeira vez, Zabelê, Zumbi, Besouro, Cabaço, Poé, Munha e entre outros, jogariam juntos. A bola começou a rolar, todo mundo de pé descalço, inclusive Munha, que abriu mão dos tênis coloridos. Lerrybardi fechava o gol, até que Mussum, um gari malemolente e sambista, que ainda falava “Cacildis”, abriu o placar com uma bicicleta.

Pink Floyd gritou: “São gente da gente e sabem jogar bola”. O time não se abateu. Tabela entre Zé e Zabelê, Zé e Zumbi, Zé e Besouro, Zé e gol. Empate. Até as senhorinhas explodiram em alegria. Gritaram gol e tudo mais. E ecoava o grito de “Ramos, Ramos”.

O jogo foi animado, mas a molecada de Ramos, cheia de energia, começou a se aproveitar do cansaço dos garis e foi enfileirando gols: De Munha, de Zabelê, de Besouro e até Cabaço, vejam só, fez dois gols. O placar elástico não tirou a alegria da turma. No final, cervejada no bar de Seu Acácio, pois a convivência havia sido restaurada.

E na rua limpinha, na hora da cerveja, alguém disse para cantarem o hino nacional. O velho militar cabeça branca puxou o hino de sua janela, até que o passista Diplomata sabiamente bradou: “Hino é coisa séria, porra. Estamos bebendo cerveja, vamos respeitar o país. Vamos cantar o samba da Imperatriz de 1989.” Todos concordaram.

E foi assim, democraticamente, com as ruas limpas e em harmonia, que garis e o povo de Ramos clamaram, irmanados, a liberdade, liberdade. Enquanto isso, o secretário municipal tentava em uma lavanderia chique tirar as manchas e o cheiro de lixo que ficou em seu terno importado…

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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