A Louca da Praça

Todos os dias ela chegava perfumada e arrumada na praça e se sentava no mesmo banco, esperando seu amor. Ninguém sabia de onde ela vinha, assim como, ao cair da noite, tampouco alguém sabia para onde ela ia. A única certeza era de que no dia seguinte, ela estaria novamente ali.

Várias gerações se acostumaram com aquela moça, depois mulher, agora senhora, naquele banco. Virou lenda entre as mães do bairro, que diziam aos filhos que não se comportavam que “a louca busca os meninos traquinas à noite”. Mas ela nunca fez mal a ninguém.

Aos que dispunham de tempo e paciência, ela contava detalhadamente sobre seu príncipe encantado, os cabelos loiros, os olhos claros, o sorriso branco e muitos mais detalhes, sempre líricos, jamais sórdidos. Explicava que ele viajou a trabalho e voltaria, em breve. Por mais surreais que fossem, seus relatos sempre eram encantadores.

Ainda arranjava tempo para criticar relacionamentos alheios e dizer como deveriam ser, na sua visão peculiar. Às vezes, se formava uma roda de pessoas escutando atentamente a voz doce daquela senhora que virou monumento móvel da praça, patrimônio do bairro e que, mesmo assim, ainda conseguia passar incólume sobre onde morava ou o que fazia.

E ninguém do bairro deixava que a tratassem mal. Embora todos achassem que ela era louca, nunca foi humilhada ou sequer provocada pelas crianças – que de certa forma a temiam – nem pelos adultos – que se compadeciam. Algumas idosas até compreendiam plenamente seus anseios e se solidarizavam.

Ela, por outro lado, nunca aceitou quaisquer esmolas que ofereceram. Sempre estava bem vestida e perfumada, com aparência saudável. Não era pobre, decididamente. E sempre muito reservada, a ponto de evitar dizer seu nome. A verdade é que ninguém sabia quem ela era.

Um dia, ela não apareceu no banco da praça. No dia seguinte, também não. Nem naquela semana. Nunca mais apareceu. Esvoaçou, como poeira. Talvez o príncipe encantado tenha chegado, talvez ela tenha sido internada em algum lugar, talvez tenha morrido.

O que todos que conviveram com ela esperam é que ela tenha finalmente saído dos braços da solidão. Até hoje, a louca da praça é motivo de susto para as criança, através das ameaças das mães do bairro…

… já para os mais velhos, ela traz um misto de saudade e nostalgia. Independente do destino que a louca da praça tenha tomado, os mais velhos sabem que, ao fim das contas, a encontrarão em breve.

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2 opiniões sobre “A Louca da Praça

  1. Pingback: A Louca da Praça (via Cotidiano e Outras Drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

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