Alta Definição

Desde que se mudou para o novo condomínio, sua vida só melhorava. Embora trabalhasse muitas horas por dia, era feliz com suas realizações e suas conquistas. Já tinha carro novo, casa nova, tudo do bom e do melhor, mas ainda lhe faltava um detalhe importante.

Era ano de Copa do Mundo e ele queria ver o Brasil jogar na melhor TV possível. Comprou um aparelho de muitas polegadas, tela plana, LED, Smart, e não sei mais quantos quetais. Full HD e que poderia ser visto de qualquer canto da sala. “A sensação de estar dentro do estádio”, era o slogan da TV.

O eletrônico era tão grande que mal coube na mala do carro novo. Uma dose de contorcionismo foi necessária para que o aparelho chegasse à residência. Quando apareceu por lá, o porteiro, gente simples, observou com muita calma e abriu a garagem. Ele só tinha um radinho para passar o tempo no trabalho, mas vivia bem assim.

Não nutria nenhuma inveja com as modernidades, até porque tinha sua TV em casa, não tão moderna, mas muito boa, comprada em doze vezes, parcelas pagas sempre pontualmente, com suor do trabalho. Quando viu a TV gigante passar, achou muito exagerado, mas cumprimentou o morador com a educação e a simpatia de sempre.

O porteiro tinha uma característica peculiar. Por mais profissional que fosse, era fanático por futebol. Além do seu time, adorava a seleção brasileira. E escutava todos os jogos no seu radinho. Era uma maneira de passar o tempo e não ficar longe de sua paixão.

Ao escutar o jogo, se empolgava. E gritava quando era gol. Às vezes barítono, às vezes vocalista de banda death metal, seu grito era ouvido por todo condomínio. Já tinha virado folclore entre os moradores. Algumas crianças até preferiam assistir ao jogo com o “tio da portaria”.

O morador novo não sabia deste detalhe. Naquele domingo, a seleção iria estrear. Se armou e animou todo para aquele jogo. Cerveja trincando de gelada, amendoim e aperitivos. Camisa do Brasil, oficial, no torso. “Apita o árbitro”, disse o narrador. Começou a peleja.

Aos 21 minutos de jogo, bola no meio-campo, na imagem belíssima da TV de polegadas monstruosas, quando de repente ele se assusta com o gutural grito de “GOL” que vem do lado de fora. Não entende nada, mas dez segundos depois, a bola está no fundo das redes.

Lembrou que as modernidades tecnológicas tem dessas coisas. O tal do delay. O jogo continuou a transcorrer até o intervalo, quando ele escuta mais uma vez um grito gutural de “na trave” e não vê nada. Até que a bola explode na baliza, novamente dez segundos depois.

Ficou irritado, comprou a TV com tanto esmero e não conseguia curtir o jogo. Fechou toda a residência e se concentrou. O jogo transcorreu com lances de perigo e sem escutar nenhum barulho a mais, até que houve um pênalti contra o Brasil, nos minutos finais.

Supersticioso, se aprontou, ajoelhou, na TV os jogadores ainda reclamavam com o árbitro, quando escuta o berro gutural: “Pegoooooooooooooou”. Se vira para o aparelho, ainda estava o centroavante ajeitando a bola. Dito e feito: O goleirão agarrou o pênalti.

Foi dormir feliz com o jogo, mas insatisfeito porque sua primeira experiência assistindo a partida na sua TV foi frustrante. Por um breve instante, ainda xingou o cara da portaria. Depois viu que era só uma postura boba e egoísta.

Ao acordar, de cabeça fria, riu da situação. E  viu a fina ironia da vida através do humilde porteiro, que não tinha TV na portaria, mas com seu radinho, tinha o privilégio de sentir a emoção primeiro. Emoção vale mais do que qualquer dinheiro.

Ao chegar em casa naquela noite, parou na portaria e tirou uma TV moderna de 14 polegadas para o porteiro, de presente. O funcionário se emocionou e recebeu apenas um pedido: que aposentasse o radinho nos jogos de futebol, com o qual concordou. Desde aquele dia, todos os gritos de gol no condomínio saíram ao mesmo tempo.

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Uma opinião sobre “Alta Definição

  1. Isso me lembra meu pai assistindo a final do Mundial de Clubes em 2012.
    Ele comprou a TV nova para ver a Libertadores e sempre notava que o vizinho gritava gol primeiro.
    No dia do mundial ele, que não consome bebidas alcóolicas desde 2005, comprou cervejas, petiscos, me fez assar um bolo de chocolate e disse que a festa seria grande. Faltando 20 minutos para o início da partida nós invadimos a casa do vizinho. HAHAHAHAHAH

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