Tamarineira

Ela estava lá. Não se sabe há quanto tempo, mas era peça presente no bairro. Frondosa, proporcionando sombra em dias de sol e abrigo em noites chuvosas. Patrimônio de todo o bairro que parecia ter crescido ao redor dela, que estava lá.

Testemunhou namoros nascerem e romances falirem. Em seu tronco, teve tatuada alguns corações pulsantes e outros tantos partidos. Viu algumas crianças impetuosas tentarem roubar seus frutos enquanto outras preguiçosas esperavam os mesmos caírem. Viu vovôs se recostarem em busca de descanso e sumirem porque eles não estavam mais lá. Mas ela estava.

Ouviu algumas serenatas serem tocadas, às vezes achou que a musa inspiradora era ela mesma. Generosa, hospedou até parasitas e trepadeiras, com hospitalidade, por mais que sugassem seu sumo. Encarava o sol e a lua com a mesma altivez.

Foi regada pela chuva muitas vezes, assim como pelo vômito de alguns boêmios que despejaram suas fraquezas e lamúrias nas suas raízes, mas sempre soube que a estiagem chegaria.

Por gerações, foi o ponto mais importante daquela pacata rua de subúrbio, até que a modernidade acabou com as casas, vilas e bares. Quando o terreno em frente foi vendido, seus dias foram contados. Já tinha sofrido podas, mas agora a coisa era mais séria.

No trabalho de um dia inteiro, serraram seu caule, acabaram com suas folhas, rasgaram suas raízes. Quem resistiu durante um sem número de anos, capitulou sem chance de defesa. Virou lenha.

Algumas crianças, hoje vovôs, estranham ao passar pelo local e saber que ela não está mais lá. Não há mais sombra, nem romance, nem serenatas, nem frutos. A modernidade ceifa tudo, menos as lembranças, que ainda resistem, fortes como a raiz da tamarineira.

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Uma opinião sobre “Tamarineira

  1. Saudades da Tamarineira Survivor bem no meio da Av do Exército em São Cristóvão. Na modernidade não dava mais para descansar sob os seus galhos, afinal ninguém queria correr o risco de ser atropelado. Mas era fantástica ali, naquele jeitão de “a cidade cresceu à minha volta”. Eu era completamente fascinada por ela. Dizem que um raio a atingiu… Não sei é verdade. Prefiro acreditar que sim a ter que aceitar que foi simplesmente decepada…

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