Arena

A Rua Cabo Reis era especial em Ramos. Poucas ainda mantinham um traçado do início do século, mas os paralelepípedos daquele cantinho do bairro, que diziam ter sido montados com óleo de baleia, traziam certo ar bucólico aos moradores.

E além do mais, transformava o time da Cabo Reis num adversário duríssimo de ser batido no campeonato. Grandes goleiros do bairro foram enganados pela prestidigitação da bola quicando naqueles paralelepípedos. Diz a lenda que o montinho artilheiro da rua tinha mais gols do que o Pelé. A equipe raramente perdia jogos em casa e, quando sapecava muitos pontos fora, se transformava naturalmente em favorita ao título.

O folclore se consumava ainda com o fato do time, caso estivesse perdendo em casa por mais de três gols ou sendo humilhado, contar com ajuda de um morador para liberar um rottweiler para correr atrás dos adversários. “Mimoso” era o nome do canino malévolo, que era utilizados em momentos raros e estratégicos.

Lá pelos idos dos anos 90, chegou à rua um velho de cabelos alvos e antipático, senhor Wilson. Senhor, não. Coronel Wilson. Na verdade, diziam que ele era tenente-coronel, mas isso não vem ao caso. Além de implicar com os meninos da rua e dizer que nos tempos da ditadura tudo era melhor, o cabeça branca tinha contatos na prefeitura. E achava uma rua de paralelepípedos algo anacrônico e ultrapassado – doce ironia.

O velhinho passou um abaixo-assinado no ano anterior, querendo proibir que jogos do campeonato fossem disputados na Cabo Reis, e só desistiu quando um “simpático” traficante da região, de codinome Djavan, mandou um bem querer para o velhinho, dizendo que se ele continuasse com a palhaçada, nem flor de lis restaria. Compreendendo a sina, não restou esquina de reclamação por parte do milico.

Faltando duas semanas para o início do campeonato, num domingo, a rua foi acordada pelo barulho de rolos compressores e demais equipamentos. Os paralelepípedos estavam sendo retirados. Entre boêmios indignados pelos barulhos – e pela ressaca – e senhorinhas estupefatas, Senhor Wilson saiu triunfante, com trajes sociais, mais parecendo ir à missa do que acompanhar uma obra.

Senhor Wilson encheu a boca para explicar que devido aos contatos, conseguiu asfaltar a rua, que deveria ser um sonho de planejamento e progresso de todo morador. No seu discurso nervoso, quase apoplético, só faltou louvar o hino e chamar o exército.

Quando estava falando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, se escutou um sonoro “puta que pariu” gutural, mais parecido com vocalista do Ratos de Porão, bradado da esquina. Kubrusly do Cacique, técnico do time da Cabo Reis e morador antigo da rua, estava indignado.

Kubrusly do Cacique era o codinome de Josivaldo, um quarentão barbudo que era idêntico ao repórter da TV daquela época. O apelido se explica de forma peculiar: Na primeira vez em que treinou o time, no meio da confusão, um gaiato jogador adversário disparou um: “Kubrusly, cala a boca, fala mais besteira que na TV”.

Complementando o brocardo, a segunda parte do codinome advém do fato do treinador e sua mulher, passista – e gostosa – serem figurinhas fáceis no mítico pagode da tamarineira, no Cacique de Ramos, na Rua Uranos.

Pois bem, o técnico soltou cobras e lagartos contra o autor daquela imbecilidade. Aquilo era inadmissível, coisa de quem soltou pipa no ventilador, jogou bola de gude no carpete. O cabeça branca começou a gritar e a confusão virou uma confusão de tenores, que faziam mais barulho do que as máquinas que lá estavam. O furdunço já estava formado.

Não só o furdunço, como o asfalto. A rua já ganhava contornos lisos, gerando lamúrias nos meninos. Lerrybardi, o goleiro mítico da Cabo Reis, só faltou chorar. Todos os jogadores se irmanaram numa tristeza. O cabeça branca, sem entender nada, começou a proferir mais asneiras:

“Vocês não vêem que agora o barato é a modernidade? Até aquele time da Holanda com nome de detergente, que esqueci qual é, agora abriu estádio novo. Chamam de Arena. Então, essa é a Arena da Cabo Reis”.

Todos os meninos, além de Kubrusly do Cacique, olharam pro velho com ódio. Não tivesse o coroa idade para andar de graça no ônibus, teria tomado uma sova monumental ali mesmo. Percebendo a beilgerância, Sr. Wilson se recolheu triunfante, embora com medo.

Uma semana depois, Mimoso, o rottweiler símbolo da rua, morreu. Alguns falam que foi cinomose, muitos dizem que de desgosto. Abalado emocionalmente, jogando naquilo que tinha virado um campo neutro, a Cabo Reis foi goleada nas três primeiras partidas nos seus domínios, algo que jamais havia acontecido. Uma tristeza que impressionou até as senhorinhas, que nunca viram os guris tão amuados.

Indignado de ver seu amado esquadrão ser ludibriado assim, Kubrusly do Cacique explicou seu drama aos demais técnicos no conselho arbitral. Todos concordaram em ajudá-lo. O plano já estava armado. Falaram com algumas senhorinhas da rua, explicaram a situação especial e todas concordaram, e pegaram o aceite das demais carolas. Agora era só executar.

Na tarde de sábado, fecharam a Cabo Reis. Fizeram um churrasquinho, ligaram o som. Junto com o som, três britadeiras, bateram as estacas, e começaram a esburacar a rua toda. Resumindo, fizeram um escarcéu poucas vezes visto.

Senhor Wilson quando viu, ficou indignado. Não sabia se xingava ou respirava. Teve uma síncope. Ameaçou chamar a polícia e prender todos aqueles vagabundos, baderneiros, delinquentes e demais adjetivos depreciativos.

Quando ele saiu de casa, telefone sem fio na mão, fazendo cada vez mais e mais ameaças, Kubrusly do Cacique o chamou no canto. Tinha um bilhete pra ele, era de Djavan. “Se fizer alguma coisa, velho xexelento, fudeu.”

Senhor Wilson ficou impressionado. Primeiro porque Djavan não cometeu erro de concordância; segundo porque estava com medo de morrer. Fato consumado, missão cumprida.

Na segunda-feira, a prefeitura foi remendar a Cabo Reis toda esburacada, completamente desnivelada com seu novo e horroroso asfalto. Assim, a troca de piso ensejou alguns treinamentos, mas o time, refeito moralmente, voltou a ser um osso duro de roer em seus domínios. O equilíbrio do torneio estava restaurado.

O vizinho das antigas, emocionado, comprou um novo rottweiler, que foi treinado para perseguir os adversários e carinhosamente foi batizado de “Mini Djavan”. Senhor Wilson nunca encrencou com ele.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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