Pirâmide

Surpreendeu a todos quando chegou no trabalho dizendo que vendeu o caminhão, sua única fonte de sustento. Agregava seu veículo na empresa e de lá tirava seu ganha-pão há mais de cinco anos. Quando o dono da firma o perguntou porque estava vendendo o veículo, respondeu sem titubear: “para investir na pirâmide”.

Conversou com a mulher, companheira de tanto tempo e sensata. Queria vender o apartamento também, mas ela não deixou. E ameaçou deixá-lo, se continuasse com a idéia, o que o fez recuar, num dos últimos lampejos de sensatez.

Não era uma pessoa culta, mas estava longe de ser burro. Com seu caminhão tinha criado os filhos, comprado a casa e o próprio veículo. Desde que foi apresentado à pirâmide pelo cunhado, se enfeitiçou. Começou investindo uma parte de sua renda, vislumbrou um retorno de parte do dinheiro com rapidez e quis mais, muito mais.

Quanto ao caminhão, ela foi contra, mas ele forçou. Disse que era fruto do esforço dele, sozinho, e ela não iria se meter. A esposa ainda tentou argumentar, mas nada pôde fazer. Ele tomou a decisão e se desfez de seu parceiro de tantas lutas.

Com o dinheiro, investiu na pirâmide. “Retorno em três meses”. “Lucro de 100%”. E mais um mundo de promessas tão eloquentes quanto discutíveis. Ele, que sempre foi desconfiado e precavido, se entregou àquela chance de ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Suas economias estavam na ciranda.

No primeiro mês, teve um retorno animador; no segundo, um retorno abaixo do esperado. No terceiro mês, escutou algumas promessas e justificativas sobre alíquotas, tributos e coisas afins. Mesmo assim estava confiante. Até que, vendo a TV, observou que a justiça suspendeu os pagamentos em denunciou a pirâmide. Fraude.

Ficou atônito. Fez passeata, carreata, buzinaço, até vídeo na internet, ligou para a pirâmide. Na primeira vez, a atendente disse que era um complô contra todos eles. Ficando sem dinheiro, achando que passaria rápido, fez empréstimo consignado, se endividou.

Depois, em várias ligações uma central telefônica quem atendia. Em menos de um mês, o número deixava de existir, não havia mais retorno. A confiança virava desespero, os sonhos viravam pó.

Sem saída, brigou com o cunhado e o acusou de todas as mazelas. O ambiente familiar virou um campo de batalha. A esposa dava graças a Deus de não terem vendido a casa, nem ter se metido com agiota. Arrematava dizendo que tinha avisado a ele, que ele não a ouviu. E tinha razão. Depressão.

Tentou voltar à empresa onde prestava serviços, mas naquele momento não havia vaga para funcionário. Tentou em outros lugares, sem sucesso. Nada. Depois de várias tentativas infrutíferas, durante todo mês, nenhuma resposta.

Já sobre o esquema dos sonhos, ninguém mais falava. A justiça bloqueou a conta dos donos, que espremeram seus laranjas e desapareceram na poeira, cheios de dinheiro. Muitas famílias se desfizeram e muita gente quebrou depois dessa aventura aditivada pela ganância e o dinheiro fácil. Ele, entre eles.

Numa noite, sem fome, sem esperança, sem emprego e sem caminhão, se sentou ao sofá. Estava arrasado, assistindo ao jornal, despretensiosamente, quando viu na TV que a pirâmide foi desfeita, os donos fugiram e a probabilidade de recuperar o investimento era praticamente nula. Chorou de desgosto e desmoronou junto. Caiu fulminado por um enfarte.

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4 opiniões sobre “Pirâmide

  1. Moço, vc tem a ‘secura’ justa: a de um Martini vodka.
    Por vezes areias do deserto com sol à pino. Outras, veludo enrolando na língua. Perfeito! E olha que sou uma apreciadora de “spirituals” muito, muito bissexta … parabéns!
    Norma.

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  2. Pingback: Pirâmide (via Cotidiano e Outras Drogas) | Beto Bertagna a 24 quadros

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