O Jantar

– Oi, como foi seu dia?
– Foi estressante, mais um dia natural. Vou tomar uma ducha e fica tudo bem.
– Amanhã está tudo certo pro jantar?
– Que jantar?
– O jantar de aniversário de 65 anos do meu tio, oras.
– Que horas, oras?
– Umas 20.
– 20 não dá.
– Por que não dá?
– Porque tem jogo do Flamengo e termina 20:30, podemos chegar às 21?
– Você está dizendo que vamos chegar atrasados em um jantar de aniversário, de 65 anos, por causa do Flamengo?
– Ahn, sim?
– Mas isso é um absurdo, é um disparate, é uma sacanagem.
– Mas faz 10 anos que é assim, já chegamos atrasados em batizados e festas de casamento, inclusive sendo padrinhos, por causa do futebol. Você já devia ter se acostumado.
– Jamais vou me acostumar. Mas tudo bem, você nunca me enganou nesse aspecto. 21 horas. Por causa do Flamengo, é capaz de você atrasar seu próprio enterro.
– Não serei enterrado, serei cremado. E tenho pavor de cemitérios. Se puder, não vou nem ao meu velório.

* * *

– Acabou o jogo?
– Sim, acabou essa porcaria.
– Quanto foi?
– Empate.
[risos discretos]
[olhar incandescente de raiva]
– Já pode se arrumar?
– Já. Vou tomar uma ducha, colocar uma bermuda e a gente vai, certo?
– Bermuda? Inaceitável.
– Como assim, “inaceitável”?
– É um jantar de aniversário de 65 anos. O aniversariante não estará de bermuda, ninguém na festa estará. É um absurdo.
– Absurdo seria se eu estivesse nu no jantar. Aí eu estaria ferindo as regras de etiqueta. Eu tenho lá culpa desse povo que não sabe se vestir e se recusa a usar bermuda? Está um calor desgraçado. Se fosse no Rio de Janeiro, todos estariam de bermuda. E ainda teria uma banda de pagode.
[olhar surpreso]
[risos indiscretos]
– Vá colocar a calça. Sem condições de ir com uma bermuda.
– Isso é preconceito, hein?
– Não. Isso é savoir-faire.
Savoá o que? [faz biquinho].
Savoir-faire, saber fazer.
– Pois savoir-faire, futebol-arte, amor platônico, coração aberto e escanteio curto depõem contra um mundo feliz e livre.
– Vá colocar a calça…
– Ok, prefeita do Distrito 9.
– Mas que abuso…

* * *

– O cardápio é bom, hein?
– Tá vendo? E você cheio de preconceitos de vir ao jantar.
– É, você tinha razão.
– Inclusive colocaram um whisky 12 anos na mesa.
– Deve ter sido artimanha sua. Quase um suborno pra vir de calça em vez de bermuda.
– Não tive nada a ver com isso.
– Entendo.

[75% da garrafa de whisky depois]

– Vamos pra casa?
– Mas ainda tem whisky aqui.
– Tá na hora de ir pra casa. Eu não bebi, logo, dirijo…
– Mas eu já ia pedir pro garçom colocar a TV no UFC do telão, em vez dos clipes de música…
– Se eu não deixei você vir de bermuda, imagine se vou deixar você fazer isso?
– Ok. Vou ao banheiro e de lá saímos.

[vai ao banheiro, se despede dos garçons no caminho]
[ela se despede e conversa com outras pessoas da família]

– Vamos?
– Vamos.
– Já se despediu do meu tio?
– Já, inclusive falei com ele para da próxima vez virmos todos de
bermuda.
– Você não fez isso.
– Fiz. E o mais importante é que ele concordou, achou que era melhor.
– Você só me envergonha.
– Mentira, só em 90% do tempo.
– Vamos embora agora.
– Ok.

[E quando saíam, o UFC estava passando no telão da festa…]

_____________

Sobre diálogos familiares, leia “Groenlândia” e “O Mundo, da Janela”

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4 opiniões sobre “O Jantar

  1. Apenas a versão masculina, em formato mais sofisticado, da clássica:
    “Mas quando ela bebe, perde o juízo.
    Solta os cabelos, desce do salto e bebe na boca do litro”.

    Afinal, quem nunca?

    Parabéns pelo texto!

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