Cleide

[ponto de ônibus lotado]
[sol escaldante]
[toca um telefone]

– Alô?

[musiquinha a cobrar]

– Ainda liga a cobrar, espero que seja importante…

[após o sinal, siga seu nome e a cidade de onde está falando]

– Alô? Quem?
– Cleide? Cleide, você ainda tem a cara de pau de me ligar, Cleide?
– Você é muito sem vergonha mesmo, Cleide. Vagabunda. E ainda me liga de um número trocado. Safada.
– O que? Eu tenho que escutar o que você tem a me dizer? Por que eu faria isso, hein? Me diga.
– Cleide, você tem um minuto.
– Não, Cleide, eu não acredito em você. Vai dizer que estava apaixonada por esse cara? Agora você me diz que simplesmente aconteceu? E quer que eu acredite em você? Tenha dó, Cleide, você é uma mentirosa!
– O que? Eu que procurei? Porra nenhuma, Cleide. Quem procura acha, eu sei que o corno acima de tudo é um curioso, mas eu estava na minha, fui te fazer uma surpresa e quando cheguei na sua casa, ele estava lá, colocando a pitoca pra vadiar. E você estava gostando, sorrindo.
– Na cama que eu comprei em doze vezes, Cleide, móvel rústico, madeira de angelim. Nosso ninho de amor. E você, o que fez? Jogou tudo fora. E o que me sobrou? Dor. Ta me doendo mais do que refrão de música do Raça Negra, Cleide. Você tá feliz com isso? Hein?

[pessoas consternadas e constrangidas no ponto de ônibus]

[ele com lágrimas nos olhos]

– Não quero mais saber de você, Cleide. Você só me traz tristeza, só me traz desilusão, agora estou aqui, acabado.
– Te perdoar? Que te perdoar o quê, Cleide, segue seu rumo. Eu tô arrasado, tá aqui o – qual é seu nome mesmo? – Demócrito que não me deixa mentir. Sem dormir, insone, abalado.

[Demócrito faz cara de quenga nova em puteiro, sem entender nada]


– Como é, Cleide?
– O que?
– Você tá maluca, Cleide?
– Só porque eu sou casado você acha que tem o direito de me chifrar? Eu nunca escondi nada de você, Cleide!

[todos no ponto de ônibus se entreolham]

– Mas, Cleide…
– Cleide…
– Calma, Cleide, deixa eu falar…
– Cleide, não me chama de cabra safado não!
– Para com isso.
– Também não quero nunca mais falar com você! Sua canalha!
– O que? Vai ficar com o cara de novo na cama que eu comprei? Vai namorar com ele? Eu mereço?
– Cleide?
– Cleide?
[disca o número de novo]
[“Seus créditos acabaram”]

– Roubou minha vida, roubou meu juízo e acabou de acabar com meus créditos. Cleide, eu te odeio.

[uma velhinha do ponto se encaminha e olha na cara dele]

– Meu filho, mude de vida. Vai encontrar Jesus ou, pelo menos, encontre vergonha pra essa cara de pau. Cabra Safado.

[ele baixou a cabeça e foi embora do ponto de ônibus]

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2 opiniões sobre “Cleide

  1. Como é que eu nunca tinha lido isso!? que maravilha!!!!
    Tô olhando voos todos os dias para ver se fabricam um de volta as 6 da manhã
    Beijo, amore Mari Pederneiras

    Curtir

  2. Pingback: 301 | Cotidiano e Outras Drogas

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