Conversa ao Pé do Ouvido

 

Ele já estava na casa dos 40 anos. Era locutor do programa de rádio mais ouvido da cidade, logo depois da Voz do Brasil. Tocava músicas românticas, traduzia baladas estrangeiras, fazia correio do amor. Era o “Conversa ao Pé do Ouvido”.

Na sua juventude, nos anos 80, fazendo faculdade de comunicação, era roqueiro. Começou nas rádios jovens, emplacando bordões e ganhando fãs, em uma época que não havia internet nem TV a cabo. Fenômeno de audiência. Era apaixonado por sua então namorada, com ele desde adolescente. Faziam promessas de casamento e juras de amor eterno.

Entretanto, a fama subiu sua cabeça, junto com mulheres, bebidas, iates, comida. Virou personagem de si mesmo. A sua paixão eterna, cansada de ser humilhada e ver seu noivo como assunto e cobiça nas colunas sociais, sempre de romance com outras pessoas, saiu de cena e terminou o relacionamento. Nunca mais falou com ele.

Ele tentou ligar pra ela, implorou por perdão, mas nunca obteve resposta. Vagou perdido por meses, mais de ano. Perdeu a moral e se perdeu. Depois de uma grande depressão e tristeza, largou o oba-oba, colocou a cabeça no lugar e redirecionou a carreira.

Seguiu pelo segmento de rádio popular, pois o povão era menos hipócrita. Decidiu fazer programas românticos, porque assim, embora se aninhasse no desamor, poderia visualizar pessoas felizes e testemunhar lindas histórias.

De segunda a sábado, escutava as dores e delícias dos ouvintes, muitas vezes informando o telefone dos mesmos lia cartas de amor e sofrimento, traduzia músicas românticas de grandes cantores que embalaram muitos relacionamentos e mela-cuecas por todo o estado. Era feliz assim.

Em um dia daqueles que parecia normal, mais uma ouvinte ligou, querendo contar sobre seu grande amor. Ele reconheceu o timbre de voz familiar, mas achou apenas coincidência. A colocou no ar. Quando ela começou a contar a história que lhe marcou a vida, teve certeza. Era a grande paixão de sua vida falando.

Pela primeira vez, ouviu a versão dela na íntegra. Cada detalhe, cada vírgula, cada pormenor. Neste dia, o programa praticamente não teve intervalos comerciais. A audiência mandava e-mails espantada com a riqueza de detalhes e com a intensidade de amor e dor daquelas palavras.

Ela finalizou seu relato dizendo que estava com saudades daquele amor, pedindo desculpas por ter falado ininterruptamente e dando seu nome real e dizendo que deixaria seu telefone para contato com a produção. Um sinal.

Naquele dia, ele colocou a música de fundo e, em vez de traduzi-la, declarou seu amor e pediu perdão. A grande maioria dos ouvintes se encantou com as palavras e não percebeu que não era a tradução da canção. Após o programa, pegou o telefone dela, ligou, se desculpou. Marcaram de se encontrar.

O amor era o mesmo, o tempo apenas potencializou. Ela estava ótima, ele também. Voltaram a namorar, depois de poucos meses decidiram se casar, sem alarde, tendo como convidados apenas os dois. Ainda hoje, ele apresenta o programa líder de audiência. E, de vez em quando, ela ainda liga como ouvinte misteriosa para se declarar a ele, em conversa ao pé do ouvido.

 

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