A Roda da Fortuna

Ela era uma menina muito inteligente, bem nascida, que chamava a atenção por onde passava, do alto do seu corpo torneado e de seus cabelos cacheados, atrelado ao seu lindo sorriso.

Filha de porteiros, imigrantes nordestinos, sempre se divertia quando dizia que morava na avenida mais cara da cidade, na beira da praia, por ser filha dos zeladores. Ninguém acreditava, mas ela nunca mentiu. Alguns pretendentes se chocavam, ela não dava a mínima importância. Sabia, por ver a prostituição e as drogas tão de perto com a riqueza, que as aparências enganavam.

Sempre foi bem criada, de maneira humilde, sem arroubos de prepotência ou vontade de ter muito dinheiro. Sabia o valor do metal, o que podia proporcionar e sempre queria fazer suas escolhas da melhor maneira possível, valorizando o conhecimento, que ninguém poderia tirar.

Foi aprovada no vestibular em universidade pública. Mesmo tendo direito a cotas, não precisou usá-las, porque alcançou a pontuação necessária para a vaga no curso que queria. Estudou em bons colégios públicos a vida inteira e sempre lembrava do “hino da tabuada” com carinho.

Conforme foi evoluindo nos estudos, chegou a hora dos estágios. Sua mãe tinha bastante afinidade com alguns moradores do prédio onde trabalhavam como zeladores e moravam. Assim, conseguiu várias peças para quando ela precisasse. Entretanto, no primeiro momento, ela gostaria de comprar algo para ela, coisa simbólica, rito de passagem.

No sábado, após a praia, foi a um shopping center, em uma loja boa e famosa. Ao entrar na loja, não recebeu atenção, e esperou pacientemente. Ninguém falava com ela. Após quase vinte minutos, chiou.

A gerente da loja a destratou, a humilhou, a xingou pela sua etnia. A confusão estava formada, gritaria, a segurança foi chamada para retirá-la. Os truculentos guardas do shopping já a estavam arrastando, como se fosse uma bandida, quando uma senhora, moradora do edifício onde seus pais eram zeladores, estava passando na hora e a reconheceu.

A senhora se impôs. Além de ser dona de lojas no shopping, era casada com sujeito muito conhecido. Ameaçou chamar a TV, colocar no “Jornal Nacional”, acabar com a reputação do shopping, mesmo tendo alguns vídeos do fato fatalmente sendo colocados na internet, em tempo real. A administração do shopping foi chamada.

Ânimos serenados, a dona da loja ofereceu desculpas e roupas como compensação. Ela não quis. Foi embora se sentindo humilhada por todos os fatos, mas confortada por aquela senhora, que sempre a tratou bem, tê-la defendido. No dia seguinte, a mesma senhora deixou de presente algumas roupas, novas, e foi com elas que ela foi à entrevista e foi aprovada.

Grande estágio, sempre elogiada, foi sempre crescendo. Até que um dia, andando pela orla da praia, passou em frente a um bar, famoso por concentrar turistas e prostitutas. Naquele dia, uma confusão e algumas meninas foram expulsas e agredidas pelos seguranças, sob suspeitas de terem furtado um turista.

Entre as meninas jogadas no chão pela segurança, entre gritos de “suas putas” e “ladras vadias”, viu a ex-gerente da loja que tanto a destratou naquela tarde de sábado no shopping. Reconheceu a voz e os trejeitos.

Olhou-a fixamente nos olhos. Parou lentamente, a ponto de ser notada. O mundo dá voltas, a roda da fortuna também. Ele a reconheceu imediatamente e baixou os olhos de vergonha. Ela seguiu em frente. E sorriu.

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