O Professor

Pedro Carlos nunca jogou uma partida no campeonato de Ramos. Ele era ruim. Jogava mal, mal mesmo. Nas peladas, só era escalado quando era o dono da bola. E o time da Peçanha Póvoas estava numa má fase de dar dó. Quando os melhores da rua eram escalados, ganhar uma partida já era difícil.

Pois o time, que era treinado por Cara de Balde, andava mal das pernas no campeonato. Para completar, o treinador sofreu um acidente que o impossibilitou de acompanhar as partidas. Sem técnico, as coisas estavam ainda mais duras. Nenhum dos coroas da rua queria treinar o time, que estava sem lenço, sem documento e sem pontos no torneio.

Visualizando a oportunidade, Pedro Carlos, o menino deslocado, isolado, batizado assim porque sua mãe era grande fã de Roberto e Erasmo, se ofereceu para treinar o time. Todos os moleques se olharam incrédulos e a primeira reação foi negar. No fim do dia, entretanto, foram à casa do garoto e aceitaram a proposta. Não tem tu, vai tu mesmo.

Pedro Carlos tinha um vizinho desprezado pelo time da rua. Vanderlei, apelidado carinhosamente de Michelã, pelas dobras que tinha no corpo todo. Ninguém deixava Michelã jogar, mas Pedro brincava de bola com ele e sabia que o gorduchinho chutava bem. E forte.

No primeiro treinamento, na pelada, Michelã encostou pra jogar e ninguém entendeu. Ao ser questionado, Pedro Carlos respondeu. “No meu projeto, é Michelã e mais 10”. E Michelã se destacou. Time escalado pro futebol de domingo, contra a Rua Professor Lacê.

O time adversário já contava com a vitória, porque a Peçanha Póvoas estava apanhando mais do que Rocky Balboa em começo de luta. Rodada após rodada, surra após surra, o time estava com a moral em baixa. Quando viram o pequeno buda Michelã em campo, os rivais gargalharam.

Os técnicos, que sabiam que Cara de Balde não iria mais treinar o time, mas não conheciam seu substituto, olharam com desdém aquele menino que nem o campeonato já tinha disputado.

Pois quando trilou o apito, e a primeira bola caiu nos pés de Michelã, saiu uma bomba. Hiroshima, Nagasaki, Mururoa e bola no fundo da rede. 1- 0. E até o final do primeiro tempo, o menino sharpei já tinha feito mais dois. Craque.

Ao fim do jogo, uma goleada com Michelã sendo protagonista. Os treinadores que estavam ironizando, olharam curiosos. Acreditavam ter sido fogo de palha. Nem os próprios jogadores do time podiam crer naquela partida tão boa. Só que isso se repetiu. Mais uma vitória. E depois outra.

Os coroas cascudos perguntaram a ele como tinha descoberto aquele gorducho do ataque e ele disse que era fruto das observações que fazia há tempos. Um cara moderno, pensaram todos. E a partir dali, começaram a mudar.

E rodada, após rodada, Pedro Carlos inovava, fazia inversões, mudava jogadores de posição, distribuía nós táticos. O time voltou a ser respeitado, temido e destemido. Por causa dos uniformes, réplicas da Fiorentina, da Amaro Sports, o time foi batizado de Jamelão Mecânico.

Pedro Carlos se tornou figura conhecida no bairro, chamado de estrategista, professor, pequeno Telê. E acabou atraindo, veja só, até a atenção de algumas garotas, conseguindo, além de fama, umas bitocas e amassos.

Depois de algumas semanas, o pequeno treinador se sentia a estrela da companhia. Barrou Cabeção, melhor jogador do time e figura agregadora da rua. “Cabeção está muito estrela, usando brinco, no meu time não pode.” Tecla SAP, jogador que tinha este apelido por gostar de músicas americanas, e cantar todas erradas, foi barrado por causa do corte de cabelo.

O time, que já não era uma surpresa, entrou em campo contra a Rua da Feira de Baixo todo retalhado. Não foi nem sombra do que tinha sido rodadas atrás. Tomou uma goleada e nem Michelã, nem ninguém, jogou bola. Na partida seguinte, a mesma coisa.

Antes da próxima rodada, todos se reuniram e foram conversar com o treinador. Sob a justificativa de que o comprometimento e a disciplina eram mais importantes que o talento, o professor não voltou atrás em sua opinião. Os meninos do time então, conversaram entre si e tomaram a decisão.

Colocaram o professor em um corredor polonês, deram um bando de cascudos e o demitiram do time, Michelã entre eles. Pra jogar sem se divertir e ganhar, melhor rir perdendo. Todos os jogadores foram reintegrados e na partida seguinte, contra todos os prognósticos, venceram o jogo, com gol do pequeno buda. A Pedro Carlos, restou usar suas táticas e técnicas no jogo de computador.

___________

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Anúncios

3 opiniões sobre “O Professor

  1. Pingback: Regulamento | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Pingback: Superstição | Cotidiano e Outras Drogas

  3. Pingback: O Pênalti | Cotidiano e Outras Drogas

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s