Violoncelo

Fazia frio. Muito frio. 0ºC. Para ele, era tudo novo, inclusive o frio. Se sentia um pinguim, todo encapotado. Mas estava encantado com aquele novo ambiente. Linguagem diferente, paisagens diferentes e um povo simpático e acolhedor, mas também sofrido. Afinal, capítulos de história só se fazem com dor, amor só são os pontos finais.

Pela manhã, em um de seus passeios,  tinha visto um violoncelo Stradivarius. “O violoncelo do Rei”, dizia a legenda. Ficou bastante impressionado, mais com o “Stradivarius” do nome do que com o violoncelo em si. Aliás, naquela sala onde repousava o instrumento, se somavam quatro da mesma grife. Opulência. Essas coisas de rei.

Depois de algumas outras visitas, esquadrinhando aquele lugar no qual nunca tinha pisado os pés antes, a noite gelada era propícia para tomar uma cerveja, até porque naquele horário jogariam os dois grandes clubes do país.

As ruas estavam vazias. Além do frio excruciante, com ventos que cortavam os lábios, o futebol afastava as pessoas das ruas. Todos pareciam estar assistindo ao jogo. A cidade estava vazia e a corrente de ar assobiava. Ao passar por marquises, via muitos desabrigados e mendigos. Como se fossem um só, estavam todos juntos, para que os corpos se aquecessem, para que não esmorecessem.

Caminhando por aquelas vielas, um som se escutava ao longe. Mais uma centena de passos, e se via um senhor de idade tocando seu violoncelo, com o estojo aberto para recolher moedas por sua performance. Era Bach que saia daquelas quatro cordas, perfeitamente afinadas. “Jesus, Alegria dos Homens”.

O instrumentista tocava com maestria. Como se estivesse em transe, fazendo um grande concerto para si mesmo e encantando aos poucos transeuntes. Ele, impressionado, colocou algumas moedas no estojo do homem. Foi assistir ao jogo, tomar umas cervejas, mas aquela melodia não saiu de sua cabeça, assim como a situação um tanto quanto insólita.

Quando voltava, querendo sua cama quente e as benesses do aquecedor, ainda pôde ver o velho senhor recolhendo o violoncelo ao seu estojo e caminhando para a marquise, onde encontraria seus companheiros de infortúnio.

O senhor se aconchegou em um cantinho, fez do estojo de seu violoncelo um travesseiro, o qual dividiu com mais duas pessoas, e fechou os olhos, buscando sonhar com dias tão bonitos quanto a melodia do instrumento.

Ele seguiu seu caminho, introspectivo, pensando que a alegria dos homens pode se manifestar de diversas maneiras. No futebol, em novos lugares, na melodia de um violoncelo, no calor humano, na dignidade.

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