Batatas

Ele acordou possesso. O banco tinha debitado uma taxa exorbitante, a título de um contrato com letras miúdas daqueles que ninguém lê e tem uma cópia em casa. A primeira expressão que disse quando olhou seu extrato foi “puta que pariu”. Durante o dia, a repetiu diversas vezes.

Tentou negociar com o banco. Ofereceram valores ridículos, parcelamentos monstruosos e nada que o deixasse satisfeito. Teria de gastar ainda mais dinheiro para se livrar da enrascada em que se meteu, apenas por não ler direito o contrato. Cadê aquele negócio de cliente exclusivo, private corporate, essas coisas empoladas?

Lembrou de que deveria seguir os conselhos de sua ex-mulher sobre investimentos, capitais e coisas afins. Ela dizia: “banco é como você: filho da puta”. Ele não levava o que ela dizia a sério. Ficou sem mulher. E sem dinheiro – não por causa dela.

Depois de mais alguns dias tentando uma solução, foi destratado pela gerente do banco, que desdenhou dele não ter lido o contrato. O fato de ter sido abocanhado na grana já era uma dor, chapéu na cabeça de otário é marreta, mas a humilhação doeu ainda mais.

A gerente, justo ela, que o bajulava tanto, fazendo aquele escárnio. Ele ficou possesso, revoltado. Decidiu que iria se vingar.  Naquele dia, saiu do banco direto para o advogado. Conversou, alinhou os termos e demais coisas. Em seguida, a ação correu na justiça e a liminar foi concedida.

Ainda não era suficiente. Sua vingança só estava começando. Ele lembrou de um velho provérbio que seu pai, feirante, dizia: “Ao vencedor, as batatas”. Foi ao banco, acompanhando ao oficial de justiça, com liminar em mãos. Além disso, levava um saco e uma jóia. Ao chegar no banco, se dirigiu à gerente.

Ela recebeu a liminar do funcionário da lei, assinou o recebimento e imediatamente passou o documento para o departamento jurídico da matriz. Aquela briga seria como Copa do Mundo, com resultado dali a quatro anos, certamente. Quando ela ia embora, furibunda, ele a chamou. Com máxima calma, informou que queria usufruir de um serviço. Afinal,ainda era correntista do banco. Queria alugar um cofre.

Organizou os procedimentos, pediu o aluguel por um ano. Viu o preço, mostrou a jóia que seria guardada, observou a papelada, inclusive as letras miúdas, assinou. Colocou o artefato no saco e guardou no cofre. Dali, saiu e, aliviado, decidiu tirar férias.

Só esqueceu de se avisar que, dentro do saco, junto com a jóia, guardou um quilo de batatas, que, obviamente, apodreceram dentro do cofre. Quando o cheiro do tubérculo invadiu toda a agência, tomou de ânsia de vômito os funcionários e clientes. A gerente tentava ligar para ele desesperada. Ele não atendia. Já estava longe, gargalhando.

 

 

Anúncios

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s