Flor de Vitória-Régia

“Eu devia ter pensado nisso”. Foi assim que ele se sentou à mesa e começou a matutar sobre tudo que tinha passado naquele período. Como se fosse um arquivo morto, com suas lembranças que seriam exumadas.

Devia ter pedido desculpas, devia ter aproveitado o momento. Talvez sorrido mais, quiçá tolerado mais. Assumido as culpas e pedido desculpas. Não escutava nada do que havia em sua volta, estava imerso em seu pensamento.

Poderia ter chorado mais também. Poderia ter lembrado de tantas boas coisas, assim como esquecido de todas as más. E talvez pedido tantos quanto deveria ter dado perdões. “Perdão, o senhor pode assinar aqui?”

Olhava o papel, não via nada. Devia ter discutido menos com as palavras que cortam e afagado mais com o silêncio que conforta. E se alegrado mais com o ridículo que é a vida, tão ridículo quanto esse monte de pensamentos descoordenados que parecia estrofe de música dos Titãs. “Senhor, temos um dia cheio, por favor, leia e assine aqui”.

Pegou a caneta, finalmente apertou os olhos cheios de lágrima que brotavam e teimavam em não cair, se esforçando para ler. Cada ponto, cada parágrafo, tudo ok. Lembrou do quanto gostava de botânica e do quanto nunca mais tinha olhado para uma flor.

Naquele momento, queria ser uma flor de vitória-régia, efêmera, e sumir. Naquele momento, seu casamento, como uma flor de vitória-régia, efêmero, ruiu. Assinou o papel, consumou o divórcio.

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