O Valor

Eles se conheceram muito novos. Se apaixonaram. O primeiro relacionamento sério dos dois. De uma cumplicidade, nasceu o encanto. Entre beijos, abraços e amassos, se desvirginaram. E engataram um namoro.

Cada vez mais, até por terem começado juntos, se complementavam no sexo. Mas no dia a dia, eram cada vez mais diferentes. Simetricamente. Ele começou a tratá-la mal. Primeiro, de forma jocosa; depois, de forma direta. Muitas humilhações, dúvidas sobre a capacidade dela. Muitas brigas e discussões.

Até que um dia se apaixonou por uma mulher mais velha, com mais experiência, mais vivida. E decidiu terminar aquele suplício mútuo. Ele se aliviou; ela, deveria ter se aliviado também, mas enlouqueceu. E fez da vida dele um inferno.

Sem escândalos, nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes, sempre o perturbava, para chamar a atenção. Sempre pedia uma chance. Eles se encontravam, faziam sexo. E depois, ele a humilhava categoricamente das mais diversas maneiras, sempre terminando com: “Eu nunca vou querer você de volta, eu jamais voltaria pra você. Você não vale nada pra mim”.

Durante um ano e muito, quase dois, essa relação doentia se sustentou. Atração que, se não era fatal, era incômoda. Sempre com encontros tumultuados, gritos, acusações, que terminavam na cama, e, posteriormente, e, desatino.

Até que, da última vez, ele a humilhou publicamente. E afirmou. “Nunca mais me ligue. Eu não quero mais ouvir sua voz. Você não vale nada pra mim”. Ele saiu batendo a porta, pra ser feliz com outra. Ela se debulhou em lágrimas.

Dessa vez, doeu. Ela decidiu não passar mais por isso. Tinha que tocar a vida. E foi assim que fez. Procurou terapia, lambeu as feridas, virou uma mulher. Os anos passaram. Encontrou alguém que a amava de verdade, se relacionaram, noivaram, decidiram se casar.

Antes, porém, passou na casa do seu primeiro namorado e deixou um convite do casamento, por debaixo da porta. Ele, ao chegar em casa, viu o convite. Se tocou de quanto tempo havia passado. Pela primeira vez, lembrou dela com muito carinho. Decidiu ligar.

Ligou, disse que queria vê-la, que estava com saudades. Nunca tinha falado assim. Marcaram um horário. Ela passou de carro, o pegou. Seguiram por uma dezena de quilômetros, não trocaram uma palavra, entraram no motel.

Transaram loucamente a noite inteira, como animais no cio. Ele disse “eu te amo”, fazia tempo que não dizia isso. Ela permaneceu impassível, usufruindo do sexo. Gozaram. Ele adormeceu, ela não. Ao amanhecer, quando ele acordou, a conta estava paga, o café servido, e um bilhete ao lado. “Você não vale nada pra mim, nunca mais me ligue”. Nunca mais se viram.

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