O Pênalti

Mais um domingo animado no campeonato de Ramos. O Flamenguinho da Aracati enfrentaria a Doutor Noguchi. Embora não fosse tão grandioso quanto o “Xepão”, também era um clássico do torneio.

Muitas caras conhecidas em ambos os times. Chamou a atenção o novo reforço que Diplomata, passista da Imperatriz e técnico nas horas vagas, assimilou para o time: Montanha.

Vinícius era um garoto incomum para sua idade. Aos 16 anos, tinha quase 100 quilos e era mais forte do que um touro nelore e já ajudava empurrando os carros alegóricos da Imperatriz. Seu apelido, “Montanha”, por pouco não era literal. Entretanto, o negócio do galalau não era futebol. Ele chamava a bola por Vossa Excelência, num tratamento desprovido de intimidade.

Diplomata, mesmo assim, inscreveu Montanha como camisa 12, goleiro reserva. Era muito raro ter goleiro reserva em Ramos. Se já era difícil encontrar um titular, imagine banco. Ninguém entendeu o que o treinador malemolente queria. Ele apenas respondia: “Deixa que eu sei o que estou fazendo.”

O trilador de apito da contenda seria “Figurante”. Arnaldo Romualdo Coelho, formado em arbitragem, que apitava jogos do campeonato carioca – da Série C – e ainda por cima aparecia como ator em novelas da Globo, fazendo sempre pontas menores do que guimba de cigarro, daí o apelido. Se houvesse arbitragem “FIFA” em Ramos, Figurante seria o mais importante.

Ele era temperamental, era estrela e, às vezes – quase todas – gostava de tomar o show pra si. Já tinha discutido e brigado com Diplomata diversas vezes, o que o deixava como persona non grata na quadra da Imperatriz. Por este motivo, Figurante não podia sambar em casa, o que o deixava mais raivoso contra o passista treinador. Havia uma rixa, de fato.

O jogo começou pegado. Como a Dr.Noguchi jogava sempre na Aracati, era o único que não sentia os efeitos da “altitude”, da rua inclinada. era um jogo tradicionalmente de poucos gols e, neste dia, o time estava melhor em campo.

Mas o Flamenguinho da Aracati – chamado assim pelo uniforme rubro-negro – tinha seu ataque demolidor de sempre. Cabaço e Paulinho Rolimã sempre trocando passes, de forma envolvente. Era osso duro jogar bola ali. No intervalo, 0-0. No segundo tempo, a Noguchi tomou um bombardeio, mas segurava o resultado com galhardia…

… até que o tempo regulamentar acabou, ficando por conta dos acréscimos do juiz Figurante. E regra de acréscimos, em Ramos, é simples: saiu, acaba. Lateral e cruzamento de Polenguinho, buscando o centroavante Paulinho Rolimã, bem marcado pelo zagueiro Iba.

[pausa: Iba tinha esse apelido porque jogava com seu irmão gêmeo no time. Ambos eram filhos do borracheiro da rua, um paraibano arretado. O irmão lateral ficou com o apelido de “Pará” e o irmão zagueiro ficou conhecido como “Iba”. Fim da pausa]

Pois Rolimã enganchou-se com Iba e se jogou na área. Nada. Mas o apito trilou. Figurante apontou e gritou: “É pênalti”. Confusão, buruçu, furdunço. Diplomata invadiu o campo, com dedo em riste: “Pênalti é o caralho, seu ator de novela da CNT”. Figurante empurrou o passista, os jogadores dos times começaram a se empurrar também.

Figurante perdeu a cabeça e tentou bater no treinador que era lendário na rua. Montanha entrou em ação: deu dois sopapos no juiz. Todo mundo lembrou da regra básica da pelada dos adultos de Ramos: goleiro reserva serve pra bater e apanhar na confusão.  Diplomata instituiu pela primeira vez esse mote nas categorias de base.

Nesse caso, Montanha bateu. Figurante ficou sem som e sem imagem, mais fora do ar que TV em dia de chuva.  Com o árbitro nocauteado, os técnicos tentavam uma solução pacífica em um ambiente beligerante: “Foi”, “Não foi”. “Foi” “Não foi”. Uma confusão dos diabos, mais de duas horas de discussão e o por-do-sol prenunciava o fim daquele domingo, antes da depressão que a musiquinha do “Fantástico” causava.

Sem nenhuma concordância, alguém foi ao orelhão, fez uma ligação e disse: “Chamei o Djavan”. Djavan, eminência não-oficial da região, traficante destemido e temido das bandas de Ramos, estava meio sumido, com medo de ser guardado, mas mexer com o futebol de ruas era mexer com ele.

Quando ele chegou, no meio do buxixo, escutou da arbitragem que ali quem decidia era o juiz, que Djavan era só espectador. Figurante foi enérgico, disse que era árbitro pro-fis-sio-nal, assim mesmo, fazendo questão de separar as sílabas. A noite já caía e o soprador de apito falou que o jogo só acabaria quando o pênalti fosse batido. Tensão no ar.

Djavan se irritou. Sacou a arma. Muitos correram. Figurante ficou paralisado pelo medo. O traficante/cartola mirou e atirou perfeitamente com sua pistola. No alvo. O transformador da rua explodiu. Toda a Aracati ficou sem luz. E então perguntou: “O que diz a regra de jogos sem luz?”. Os técnicos responderam: “Jogo sem luz por fator externo é adiado e deve ser remarcado e jogado depois, com a luz do sol”. Djavan olhou para o árbitro, que estava extremamente assustado, e disse: “Prazer, fator externo.”

Figurante então pegou a bola, apitou e apontou pro alto. O jogo tinha acabado e deveria ser remarcado. Djavan mandou um de seus asseclas ligar pra Light, com o recado de que era ele que estava pedindo. Antes do fim do “Fantástico”, a luz tinha voltado. Os técnicos decidiram aceitar o 0x0 pelo aperto no calendário. E Figurante pediu “afastamento” do Campeonato de Ruas de Ramos, nunca mais voltando a apitar.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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2 opiniões sobre “O Pênalti

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