A Canção Continua a Mesma

“I had a dream, crazy dream
anything I wanted to know,
any place I needed to go, hear my song…”

[Led Zeppelin – The Song Remains the Same]

Fazia tempo que eles não se encontravam nesta intensidade. Como um caixeiro viajante, o Flamengo exilado pelo Brasil retomando o Maracanã. Se reencontraram – torcida e time – numa noite de vento gelado de quarta-feira, contra o Cruzeiro.

Contra o Cruzeiro, o corvo azul dos mata-matas contra o rubro-negro. Amplamente favoritos, Golias em forma de raposa. Ao Flamengo, restava a posição esquisita de ser Davi, de ser azarão, algo que a arrogância inata da Nação não permite constantemente, mas os choques de realidade têm feito perceber.

Mas estávamos lá. E aqui. E por aí. Lá, estava aquele time latino-americano apoiado por mais de 50.000 manos. Manos do Mano. Brothers do brother, em bom carioquês. Não sabiam se iam ser felizes, mas não tinham medo. E medo de amar impede o amor. Bares, casas, por todo o Brasil, tudo parado. Quem vestia rubro-negro sequer respirava.

E o time ia, do jeito que dava. Como diz um amigo, consagrando o esquema tático em voga desde 1912, o “Vamo lá, porra!” que sempre incendeia o Maracanã. O Flamengo joga melhor sob o signo da dúvida, o Flamengo joga melhor quando não é o favorito.

No primeiro tempo, o time começou a cercar o Cruzeiro. A China Azul virava Taiwan, isolada e recolhida ao seu campo de defesa. O Flamengo, entretanto, era um arame liso, cercava, apertava, mas não feria ninguém. Foram 45 minutos de flerte sem colocar a bola pra dentro. O Ira! diria que este flerte é um flerte fatal. Não foi. Ainda bem.

Não sei o que foi dito no intervalo. Mas certamente os jogadores ouviram os gritos da arquibancada. O Maracanã, muitas vezes destruído e reconstruído, como um Coliseu moderno, tem alma. Ela está ali, debaixo das cadeiras e da iluminação ultramoderna. A alma não morre, mesmo que o corpo padeça. Eles sabiam disso. Nós sabíamos disso. A torcida fez o ritual que lhe cabe.

Voltaram pro jogo. Não havia Zico. E daí? Zico é nosso deus, mas o período com ele foi uma época de sonhos. O Flamengo sempre se consagrou por times guerreiros, que ralam a cara no chão. O Mais Querido é feito de gente como a gente que faz a gente feliz. E assim foi. Sem craques, com operários. A revolução em campo.

O time amassava o Cruzeiro, que não respirava. Entretanto, em dois contra-ataques mercuriais, os azuis quase deixaram as coisas negras. Mas o negro estava ao lado do vermelho. Negro como eu, como tu, como todos os brasileiros mestiços.

Negro como Elias. Aos 43 do segundo tempo, número sagrado da Cabala rubro-negra, o lépido e fagueiro Rafinha, que estava sumido no jogo – a ponto de ser quase anunciado nos alto-falantes do Maracanã, como criança em shopping – dá uma bola com açúcar e afeto para Paulinho, o Boi Bumbá de Piracicaba. Ele é irregular, mas nunca se omite. O passe rasteiro sai milimétrico, com trena para a entrada da área…

… e encontra Elias. O negro Elias. Como eu. Como tu. Com sangue nas veias. Sangue rubro. O vermelho e o negro. O chute certeiro. “A imensidão da dificuldade a vencer, a  incerteza do êxito.” Stendhal. Erudito. Popular. Místico. 43. Gol. Porra. Gol.

Grita a torcida. Gritam as casas. Grita o Brasil. Elias, com sua coxa avariada, impulsionada por milhões, estufa a rede azul. Cala o líder do Brasileiro, corta as asas do corvo de sempre. Elias, chuta como um black, dança como um black, usa o cumprimento black. Rei. Combo. King Combo do Mengão.

A alma – a minha, a sua, a do Maracanã – incendeia. Os gritos saem descompassados. Crianças sorriem, adultos choram. Todos fomos Zico, todos fomos Rondinelli, todos fomos Angelim. Todos fomos Elias. Gente como a gente fazendo a gente sorrir. Em casa. No Maracanã. Nosso lar. A música dos gritos da torcida volta a ecoar. Dormimos felizes, no mesmo tom. Que venha o Botafogo. A canção continua a mesma.

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4 opiniões sobre “A Canção Continua a Mesma

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