Contra-Relógio

I

O sol desponta no horizonte, já a ponto de ofuscar os olhos. Alonga. Começa, do começo. Pensa. O passado retesa. Tem muita dor esperando por cicatriz, muita coisa por recomeçar. Aquece. Liga o cronômetro. Hora de partir. Trota.

II

Quantas vezes minutos pareceram horas? Quantas vezes tudo que queria era apenas que terminasse? E quando terminou, a confusão que se instalou na cabeça. Sem direção, nem orientação. Era hora de seguir um prumo, momento de fazer algo, sem saber o que. Um passo a frente. Dois. Três. Corre.

III

Tudo que foi construído indo por água abaixo. Algumas decisões são assim mesmo. Não existe pretérito perfeito, ainda menos mais que perfeito. Todos os passados são imperfeitos, e assim se vive. O que não pode existir é o futuro do pretérito. Esse deve ser evitado. O destino, essa moça de véu negro. Sarcástica. Ácida. Lática. Pulsa. Dói.

IV

Não existem vencedores em uma guerra silenciosa. E todos que perdem têm seu luto a cumprir. Naquele momento, é um exército de uma pessoa só, lutando contra o nada, buscando o horizonte e um amanhecer, mesmo que a noite – sem estrelas – pareça interminável. A metade do caminho se aproxima. Dói mais. Sua. De quem? Sua. Pinga.

V

Há horas em que tudo que se quer pensar é no nada. A liberdade tem seu preço, sempre. As escolhas que nos pautam são os grandes juízes. A sentença que nós mesmos escrevemos, por mais sentimentos que tenhamos. Não há muito a ser feito perante isso. Há momentos em que endurecer, perdendo a ternura, é necessário. Endurece. Cãibra. Olhos marejados. Segue.

VI

Agora não há como voltar atrás. As bagagens que levamos vão conosco onde for. Os herdeiros das escolhas são tatuagens que acompanham. É assim que é. Assim que deve ser. A hidra dos receios deve ser combatida. Cabeça por cabeça. Momento a momento. A dor vira companheira. Anestesia.

VII

O objetivo parece estar mais perto, enquanto aquele porto parece estar mais longe. O vento sopra, como respiração fresca. Coragem. Falta pouco. Chega já. Quando nada parece ter solução, ela surge ali, quieta, observadora, apenas esperando ser utilizada. Apenas esperando o como, pois já existe o porquê. Não afoga. Afaga. Ofega.

VIII

Não é momento pra raciocinar. Apenas corre. Não há muito o que ficar remoendo, só visualizar o futuro. É ali que reside o caminho. A vida é um xadrez de jogadas imprevisíveis, das mais complexas às mais bobas. O simples às vezes define o jogo. O jogo é pra ser jogado. Quer jogar. Sprint.

IX

Abre um pequeno sorriso. Já volta à forma. A dor se transforma em troféu. Cicatriz. Não há espaço pra rancores. A dama do passo firme é o guia no tabuleiro que se transformou aquele momento. Observa o cronômetro. Tempo bom. Bom tempo. O sol, inclemente, é um grande companheiro. Desacelera. Endorfinas.

X

Afinal, ao final. Cansa, mas satisfaz. Hora de ficar em paz. Os desafios se repetem dia após dia. A cada momento, algo novo e diferente. É assim que é. É assim que deve ser. O tempo é o senhor da razão, mas quase nunca está a favor. A vida é uma corrida contra-relógio. Há de se correr para a vitória. Suspira.

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