O Rádio

Ele tinha a mania de dormir ouvindo rádio. Ela odiava a mania que ele tinha de dormir ouvindo rádio. Não entendia como era possível adormecer com aquele barulho estridente. Era uma tecla na qual ela sempre batucava nas discussões e crises do casal.

E ele ouvia rádio AM, pra piorar a questão. Aqueles barulhos e vinhetas, aquelas vozes vibrantes ou soturnas. O rádio AM é o extremo, a moderação passa longe. Aquilo a incomodava profundamente. Para ele, era demais. Desde a infância, os locutores de rádio eram seus amigos, companheiros de aventura e desventura.

Passaram pelas bodas de prata e ele, ali, ouvindo seu rádio; ela, sempre reclamando. Algumas vezes jogou o aparelho pela janela; noutras arrumou a mala – dele – jurando pedir divórcio. No fim das contas, ele abaixava o volume completamente e pedia clemência. Ela aceitava e sorria, triunfante.

Quando estavam perto das bodas de ouro, ele estava no seu cantinho. A cadeira não balançava,  o rádio estava desligado. Ela estranhou e foi vê-lo. Ele tinha partido, sem sofrer, de um infarto fulminante. Ainda hoje, ela liga o rádio de vez em quando pra matar a saudade dele.

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