Superstição

Ramos em setembro tem festa da igreja. A Igreja de Nossa Senhora das Mercês, que fica ali, na Roberto Silva, perto do supermercado. Igreja famosa por ter sido protagonista de um acidente entre aviões, nos anos 50. Triste coincidência. A igreja é linda. Nome de santa, nome de avó. Santo é quem acalenta, não é mesmo?

Pois bem, devido à quermesse, o jogo entre a Roberto Silva – onde ficava a igreja – e a Rua da Feira de Cima teria de ser disputado na sexta- feira. Nada demais, não fosse o fato de ser uma sexta 13, e o técnico do Cimão, Pink Floyd, ser absurdamente supersticioso.

Pink Floyd, em que pese seu passado militar, virou hippie, daqueles bem atuantes. Entre a paz, o amor, as flores e o poder, a era de Aquário não resistia a um gato preto, a uma escada mal colocada e coisas do tipo.

Ramos, embora seja de alma enorme, é um bairro pequeno. Existe o lado de lá, da Avenida Brasil, do Piscinão e dessas coisas que chamam atenção no noticiário, e o lado de cá, do campeonato de ruas, das festas juninas, do fuzuê, da Imperatriz, do Cacique de Ramos, do Morro do Adeus e do Complexo do Alemão.

Sendo um bairro pequeno, todo mundo sabia o quanto Pink Floyd era supersticioso, inclusive P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico da Roberto Silva. O treinador, além de amigo próximo de Pink Floyd, era gaiato. Muito gaiato. Aquela sexta seria inesquecível.

Pink Floyd detestava sair na sexta-feira 13. Viagens, nem pensar. Ele até pensou em não comparecer ao jogo, mas seria uma desfeita com a equipe, que ia bem no campeonato. Seus filhos – Zabelê, Zumbi e Besouro – imploraram ao pai que ele fosse.

E ele decidiu ir. Todo de branco. Colocou seu patuá. Rezou três vezes. Confiava num sinal dos céus. E foi. Assim que chegou na esquina da Roberto Silva, P3 jogou um gato preto no caminho. Quem se arrepiou todo foi o velho hippie. Seu lado escuro da lua, seu coração atômico, todos os seus ecos ressoaram. Dureza.

O time da Roberto Silva entrou todo de preto, mudando o uniforme tradicional. “Mau presságio”, pensou Pink Floyd. O jogo começou e o time da Rua da Feira de Cima parecia tão amedrontado quanto seu técnico. Tungstênio estava endiabrado e explosivo – sem trocadilhos – e marcou duas vezes no primeiro tempo. 2×0 para os corvos da Roberto Silva.

O intervalo chegou e P3 colocou uma escada no caminho de Pink Floyd. Enquanto um se arrepiava todo, o outro gargalhava. Na preleção, apenas o muxoxo do treinador borocoxô. Um hippie borocoxô não era lá algo comum, mas o que fazer? Do outro lado, Tucano, Tungstênio e Alcione – um moleque que ganhou o apelido por ser marrom, garoto, maroto e travesso – tinham jogado o fino da bola no primeiro tempo.

Até que o padre da igreja foi fazer os testes pra quermesse. O sacristão dizia que era melhor ser prudente e ver se estava tudo nos conformes. O padre, então, mandou o sacristão tocar o sino. E o sino ecoou, o gato preto se assustou e a escada caiu – sabe-se lá porque. Pink Floyd achou que aquilo era o sinal dos céus. No final do intervalo, reuniu o time, mudou o astral e apresentou as armas. A preleção se resumiu num “agora vai! vamo virar essa merda.”

E o time que parecia um trem fantasma voltou um carrossel de emoções. Oh, yes. Zabelê, para Zumbi, para Besouro. Todos voando. Um 14-Bis. Besouro diminuiu o placar logo no primeiro lance pós-intervalo. P3 não acreditava no que via. Pink Floyd brilhava. O sino da divisão tinha começado a tocar.

Os meninos da Roberto Silva não sabiam o que fazer com a bola. Era um exorcismo futebolístico. Girino, o zagueiro pura disposição, aproveita um escanteio e sobe. Por quem os sinos dobram: Não sei, mas Girino, ele sabe. E testa a bola como se fosse um Tomahawk, um Patriot, um Exocet [calcinha]. Míssil. É o gol de empate.

O gato preto se aninha perto do lugar onde está P3. Ele olha com aquela cara de “sai pra lá, sai pra lá”, característica de quem deve e teme. Pink Floyd está em estado de êxtase. Altas expectativas. A chuva desaba, limpando as mazelas. Bobby, o goleiro cabeçudo, passou a fechar o gol. O Cimão dominava.

E assim veio um ataque do Cimão, mais potente que simpatia de São Cipriano. Girino tocou para Afonso Perereca, que tinha essa alcunha por ser dançarino de charme e pular mais do que pogobol descontrolado.

A tabela anfíbia deu certo e encontrou o ataque hippie. De Zumbi, para Besouro; de Besouro, para Zabelê, que observou o goleiro saindo e deu um toque caprichado, encobrindo o camisa 1 com requintes de crueldade. Gol da vitória.

P3 não acreditava, Pink Floyd não acreditava. Uma vitória histórica, que entraria para o anedotário de Ramos. Após os cumprimentos, Pink Floyd decidiu ir pra casa, não era bom ficar no bar numa sexta-feira à noite.

Ainda assim, P3 perguntou o que ele tinha feito pra vencer a superstição. Pink Floyd disse que falou com uns amigos do além e usou uns galhos de arruda. Os amigos do além pediram pra ele esperar um sinal do céu. A chuva veio, os sinos ecoaram. P3 ficou atônito e incrédulo com a resposta.

No dia seguinte, na quermesse, por curiosidade, perguntou quem era o sacristão. O zelador da paróquia era o Seu Malaquias, ex-jogador do Cimão em tempos antigos e que conhecia bem as manias de Pink Floyd. O sino tocou pela influência dele. O deus do hippie era a mão parceira. P3 ficou com o gosto amargo da derrota. E o gato preto no seu pé.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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2 opiniões sobre “Superstição

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