O Elevador da Vida

Ele entrou naquele elevador sem a mínima expectativa. Era apenas mais uma tarde de um dia corrido de meio de semana, daqueles dias que passam sem deixar saudade, e que só são marcantes se houver um bom jogo de futebol no fim da noite.

Ao chegar naquele prédio comercial meio velho, com aparência dos anos 50, não guardava nenhuma expectativa senão resolver aquilo que pretendia. Uma reunião rápida, rasteira. Esperava que fosse indolor. Apertou o 7. O elevador se abriu, com aquela cortina de metal tão característica do meio do século passado.

Estava sozinho. Quando a porta do elevador se fechou, sentiu um delicioso cheiro de madeira. Cheiro de coisa antiga. A memória olfativa se ativou. Fechou os olhos. Através de suas pálpebras cerradas, passou um filme de sua vida.

Lembrou-se da infância, na casa da avó. O elevador tinha o mesmo cheiro. Se imaginou chegando na porta do apartamento da sua querida velha. O abraço, o beijo, o bolo branco com achocolatado. A laranja descascada. Depois saía correndo, pra brincar com os meninos lá embaixo. E, fatalmente, perder o horário. E tomar um puxão de orelha. Daqueles que
doía pela atitude. E ficar de castigo. E pedir desculpa. E comer outra
fatia de bolo.

Pensou em tudo que tinha passado. Nas coisas duras e felizes. No quanto a avó o ajudou. Pensou em tudo que ela passou. Quando perdeu o avô, quando encarou a doença, ganhando todos os rounds daquela luta interminável durante muito tempo, até que a enfermidade, traíra e traiçoeira, virou o jogo com golpes lentos e dolorosos.

Quando ela se foi, ele não estava lá. Não pôde estar lá. A distância física era enorme, a distância espiritual inexistia. Aliás, continuava a não existir naquele momento, quando o cheiro do elevador inebriou suas narinas e ele voltou imediatamente à infância.

Ao abrir os olhos, marejados, tinha perdido o andar no qual pretendia descer. Duas pessoas no elevador o olhavam sem entender nada. Talvez achassem que era só mais um doido naquele dia de meio de semana que passa sem deixar nenhuma saudade. Para ele, decididamente, aquele não tinha sido um dia comum.

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2 opiniões sobre “O Elevador da Vida

  1. “Quando ela se foi, ele não estava lá. Não pôde estar lá. A distância física era enorme, a distância espiritual inexistia. Aliás, continuava a não existir naquele momento, quando o cheiro do elevador inebriou suas narinas e ele voltou imediatamente à infância.

    Ao abrir os olhos, marejados, tinha perdido o andar no qual pretendia descer. Duas pessoas no elevador o olhavam sem entender nada. Talvez achassem que era só mais um doido naquele dia de meio de semana que passa sem deixar nenhuma saudade. Para ele, decididamente, aquele não tinha sido um dia comum.”

    LINDO!
    Lembrei da minha vó, eu também não estava lá.

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